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Disco precursor da bossa nova será recriado em show


Marco da transição do samba-canção para a bossa nova, o disco "Canção do Amor Demais", de Elizeth Cardoso, foi lançado há 60 anos com músicas da parceria entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes. O Instituto Moreira Salles lembra da data com o espetáculo "Canção do Amor Demais, Outra Vez", dia 10 de abril, às 20h30, no IMS Paulista (Avenida Paulista, 2424, São Paulo).

O show terá novos arranjo de Dante Ozzetti, desenvolvidos em conjunto com a banda, que relembram o disco faixa a faixa, a partir da identificação das principais linhas melódicas das composições e arranjos originais de Jobim e da valorização da síntese emblemática do violão de João Gilberto, que pela primeira vez havia sido gravada em disco.

A direção artística é de André Salerno e o espetáculo conta também com projeções de imagens do acervo do IMS. Conhecida como “A Divina”, a cantora carioca teve seu acervo adquirido pelo Instituto Moreira Salles em 2003, formado por centenas de documentos, fotografias, discos, pôsteres, partituras, objetos e fitas gravadas.

Participam do show Ná Ozzetti (voz), Dante Ozzetti (violão e direção musical), Mario Manga (guitarra e violoncelo), Sérgio Reze (bateria), Zé Alexandre Carvalho (baixo acústico) e Fernando Sagawa (sopros e teclados).

O texto a seguir, do coordenador da Rádio Batuta, Luiz Fernando Vianna, mostra a importância do disco "Canção do Amor Demais" para a música brasileira:

Ainda bossa, ainda nova

Esqueçamos o que significam hoje Vinicius de Moraes, Antonio Carlos Jobim, Elizeth Cardoso e João Gilberto. Em 1958, eles não tinham a força que passariam a ter – Vinicius já era respeitado como poeta, não tanto como letrista. Nem seus nomes estavam entrelaçados como ficariam para sempre.

Um disco reunindo os quatro era improvável; o sucesso da empreitada, quase impossível; a possibilidade de tal encontro entrar para a história, risível.


Mas tudo isso aconteceu. "Canção do amor demais", como foi batizado o LP gravado em janeiro daquele ano, consagrou-se como o prólogo da bossa nova, o primeiro passo rumo a esse acontecimento fundamental. No dia 10 de julho, João Gilberto gravaria a sua versão de “Chega de saudade”, e a música brasileira nunca mais seria a mesma.
 

O lançamento de "Canção do amor demais" está completando 60 anos em abril de 2018. O IMS celebra a data com um show que reconstitui o repertório do disco, a ser apresentado no IMS Rio no dia 8 e no IMS Paulista no dia 10. E a Rádio Batuta publica, no dia 4, "Canção do amor demais – A caminho da bossa nova", série em seis episódios. O roteiro e a apresentação são do jornalista João Máximo, profundo conhecedor de música, biógrafo de Noel Rosa e criador de documentários radiofônicos como os sobre Vinicius de Moraes e Frank Sinatra.

Máximo detalha nos quatro primeiros episódios – um para cada personagem – como o quarteto era improvável. A dupla Tom-Vinicius tinha menos de dois anos de vida, e o êxito das composições feitas para Orfeu da Conceição, peça escrita pelo poeta, ainda não lhe garantia o status de grande parceria. João Gilberto reaparecera havia pouco no Rio, depois de períodos de reclusão no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais, e estava à procura de trabalho. E Elizeth era respeitada como intérprete de sambas-canção, mas não combinava com nenhum projeto que se pretendesse revolucionário.


E, quando o produtor Irineu Garcia concebeu o disco, não queria mesmo revolucionar nada. Seu pequeno selo Festa dedicava-se a lançar LPs em que poetas e escritores declamavam versos e prosas próprios. Imaginava-se, então, que poemas de Vinicius poderiam ser musicados. Mas ele e Tom resolveram partir do zero e criar novas canções. Afinal, poema é uma coisa, letra de música é outra.


Das 13 faixas de "Canção do amor demais", 11 eram inéditas até então, inclusive a que dá título ao disco e aquela que se tornou a mais famosa: “Chega de saudade”. Duas eram apenas de Tom, outras duas apenas de Vinicius.
 

Na série da Batuta, Máximo destaca que o violão de João não está apenas nas duas faixas pelas quais é sempre lembrado: "Chega de saudade" e "Outra Vez". Aparece em outras, mas nas duas, de fato, a tal “batida” aparece com nitidez, fazendo até Elizeth mudar seu estilo e economizar nos vibratos.
No quinto episódio, dedicado apenas ao disco, todas as músicas podem ser ouvidas, entre elas joias como “Janelas abertas”, “Modinha”, “Estrada branca”, “Eu não existo sem você”, “Serenata do adeus”, “Medo de amar” e “As praias desertas”.


No sexto e último, mostra-se, com exemplos, o que aconteceu com essas canções ao longo das últimas seis décadas. Foram muitas regravações e a confirmação de que era um repertório excepcional o que Tom e Vinicius reuniram para "Canção do amor demais".


A partir de 1958, João criou o padrão da bossa nova, Tom e Vinicius se tornaram os principais compositores daquela forma de se fazer música, e Elizeth retomou a sua carreira vitoriosa de intérprete, somando à sua condição de brilhante cantora a participação em um momento histórico.
O LP não foi um sucesso, mas Irineu Garcia não teve prejuízo. E o valor daquele projeto quase descompromissado, do qual pouco se poderia esperar, não tem preço. Passaram-se 60 anos, e a música que ali se escuta ainda parece bossa e nova.

Comentários

  1. O artigo 7º da norma diz que "a autoridade pública não poderá receber salário outra remuneração de fonte privada em desacordo com a lei, nem receber transporte, hospedagem ou quaisquer favores de particulares de forma a permitir situação que possa gerar dúvida sobre a sua probidade ou
    honorabilidade.
    Se tem algum golpista, que se enquadre nessa definição de honorabilidade, não saio mais de casa. Corro o risco de ser atingido pelo côcô de uma vaca voadora.

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