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Mostra traz ao Brasil a cultura e a arte da Jamaica, além dos clichês


Engana-se quem acha que o reggae é só Bob Marley. Com quase duas décadas escrevendo sobre o gênero - com sensibilidade às conotações políticas e sociais ao redor desse estilo -, o curador francês Sébastien Carayol chega ao Brasil com Jamaica, Jamaica!, mostra no Sesc 24 de Maio, em São Paulo. A exposição, concebida pela Cité de la musique – Philharmonie de Paris, produzida e realizada pelo Sesc São Paulo, vai além dos clichês e apresenta ao público como a cultura dessa nação se relacionou com o ativismo negro e influenciou na criação de novas vertentes musicais ao redor do mundo.

Carayol começou a pensar na mostra em 2013 para expor, diz ele, “a verdade que nunca foi dita” e romper com a desinformação que existe sobre o país. “Na Europa, a visibilidade musical jamaicana depende do nível de respeito que as outras músicas ‘black’ já conseguiram por lá, como o jazz, o soul, o funk e o rap”, diz. Além disso, o curador acredita que é uma injustiça a falta de conhecimento sobre ídolos jamaicanos, como Marcus Garvey, por exemplo, o que torna a exposição um marco de representatividade.


Garvey, empresário e comunicador lembrado por Carayol, é um dos nomes também apresentado na exibição. Falecido em 1940, ele é considerado um dos maiores ativistas da história do movimento nacionalista negro e lutava contra a perda de valores africanos nas nações dominadas pela colonização branca. O militante presidiu a Associação Universal para o Progresso Negro (AUPN) e colaborou com a criação de ideias contra a inferioridade racial. No entanto, seu legado e sua importância para o país caribenho, de maioria negra, ainda não é discutido e apresentado em todos ambientes acadêmicos e escolares ao redor do mundo.

Diante disso, Carayol explica que o que o guiou foi oferecer à nação a oportunidade de vir ao Brasil contar a história sem influências externas à ela. “Nem eu, nem a França, nem qualquer outra pessoa está aqui para emitir visões tendenciosas”, afirma. “Temos na exposição trabalhos específicos de pintores jamaicanos, como Leasho Johnson, e do cantor de reggae Danny Coxson, por exemplo”, complementa.


O francês visitou museus na Jamaica e nos Estados Unidos, coleções privadas em diferentes países e convenceu familiares de antigos produtores e artistas jamaicanos à emprestar algumas produções.


A mostra foi adaptada para o Brasil com a presença do reggae em São Luís do Maranhão, São Paulo e Bahia. Essas regiões misturaram seus ritmos ao som jamaicano e deram formato único incorporado ao DNA brasileiro.


Jamaica, Jamaica! traz à tona o fato de que não há como entender por completo a música do país sem falar da onda de violência pela qual a população passou depois da independência, em 1962. Gangues de rua e milícias foram articuladas por políticos para as disputas eleitorais enquanto o músico Bob Marley e o grupo The Wailers lideravam o movimento reggae do país.


Conflitos armados tomaram as ruas de Kingston, capital federal, com interferência da CIA, e houve um crescimento exponencial do tráfico de drogas na década de 1970. Nesse cenário, a música popular surgia como uma válvula de escape para a pobreza e o medo, e isso foi usado como arma política. O antigo primeiro-ministro jamaicano Michael Manley, por exemplo, usou a melodia Smile Jamaica, de Bob Marley, para alavancar nas corridas eleitorais de 1976.


De acordo com Carayol, esse contexto deixou marcas na música do país. “Ainda estou convencido até hoje de que quando Bob Marley pedia paz e amor em suas músicas, ele basicamente estava falando sobre o seu bairro, Trenchtown, que sofreu com a violência”, reflete. “Ele tinha em mente que havia centenas de pessoas mortas em cada eleição geral.”


Todas essas questões intrínsecas foram divididas em oito diferentes núcleos ao longo dos 1.300 m² de espaço expositivo, que, em conjunto, formam um panorama de elementos marcantes na construção político-social e cultural da Jamaica.

Para além do ícone Bob Marley, a exposição retrata artistas e grupos ligados a música - como Peter Tosh, Marcus Garvey, The Skatalites, The Wailers, etc, a criação de ritmos - como o Ska, Soundsystem e o Dancehall - e seus códigos para divulgação, comunicação e representação da própria cultura.

Para demonstrar a complexidade que envolve a ilha caribenha, os núcleos temáticos reúnem objetos icônicos, como pôster, instrumentos, vinis, livros, pinturas e fotografias, expandindo os ecos da influência jamaicana em regiões brasileiras e as ressignificações criadas a partir dessa mistura.


Rádio Jamaica


Em 1959, a primeira estação de rádio local, a JBC (Jamaica Broadcasting Corporation), fundada por um dos articuladores da independência jamaicana, Norman Manley, tornou-se a primeira emissora da ilha a concentrar-se mais na música jamaicana do que no jazz americano e no rhythm and blues.

A partir deste momento, a rádio tornou-se não apenas uma fonte de orgulho para os jamaicanos como também o primeiro elo da cadeia da produção musical: shows transmitidos ao vivo proporcionaram aos produtores locais uma geração de novos talentos para a indústria fonográfica jamaicana.

Em homenagem à história desta música extraordinária, a exposição propõe uma experiência sonora como parte integrante: a Rádio Jamaica, emissora online que apresenta uma série de músicas, sons e playlists. Você pode ouvi-la até 26 de agosto durante a visitação da mostra - levando o seu próprio fone ou em diversos dispositivos eletrônicos - e também na web, no player ou nesse link.

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