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Um samba-enredo sobre um país de sonho


Carlos Motta


Carnaval chegando, as escolas de samba capricham nos ensaios. 

Os sambas-enredo deste ano das escolas do Rio, como sempre, abordam uma miscelânea de temas, que vão desde Chacrinha à Rota da Seda, passando pelo Museu Nacional e Frankenstein.

Dos milhares de sambas-enredo compostos, porém, foram poucos os que sobreviveram na memória popular e são cantados em qualquer época de ano.

Um deles, se não o mais lembrado, é "Aquarela Brasileira", de Silas de Oliveira, levado originalmente ao desfile de 1964 pela Império Serrano - em 2004 ele foi novamente apresentado, pois a escola fez uma reedição do enredo.

O samba faz uma homenagem ao clássico "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso, uma das canções brasileiras mais tocadas em todo o mundo.

Silas faz uma viagem pelo Brasil, exaltando a cultura, arte e arquitetura das regiões geográficas e de seus Estados.

Matinho da Vila, que, como inúmeros outros artistas, o gravou, diz que "Aquarela Brasileira" só não é perfeito porque deixa de citar alguns Estados.

Apesar de até hoje empolgar as plateias, o samba só ficou em quarto lugar no desfile de 1964 e em nono em 2004. Diz a lenda que a  notícia da morte de Ary Barroso chegou à Avenida Presidente Vargas quando a Império Serrano se preparava para começar seu desfile, o que teria tirado o ânimo dos componentes.

Seja como for, "Aquarela Brasileira" é uma joia, uma das obras-primas da música popular, atemporal como são as grandes criações - embora cante um país de sonho, "uma maravilha de cenário", uma terra muito distante desta de hoje.

Dá para ouvi-lo, na voz única de Elza Soares, neste link:


Vejam essa maravilha de cenário:
É um episódio relicário,
Que o artista, num sonho genial
Escolheu para este carnaval.
E o asfalto como passarela
Será a tela do Brasil em forma de aquarela.
Passeando pelas cercanias do Amazonas
Conheci vastos seringais.
No Pará, a ilha de Marajó
E a velha cabana do Timbó.
Caminhando ainda um pouco mais
Deparei com lindos coqueirais.
Estava no Ceará, terra de irapuã,
De Iracema e Tupã
Fiquei radiante de alegria
Quando cheguei na Bahia...
Bahia de Castro Alves, do acarajé,
Das noites de magia do Candomblé.
Depois de atravessar as matas do Ipu
Assisti em Pernambuco
A festa do frevo e do maracatu.
Brasília tem o seu destaque
Na arte, na beleza, arquitetura.
Feitiço de garoa pela serra!
São Paulo engrandece a nossa terra!
Do leste, por todo o Centro-Oeste,
Tudo é belo e tem lindo matiz.
No Rio dos sambas e batucadas,
Dos malandros e mulatas
De requebros febris.
Brasil, essas nossas verdes matas,
Cachoeiras e cascatas de colorido sutil
E este lindo céu azul de anil
Emoldura em aquarela o meu Brasil.

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