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Piano e flauta, Amilton e Léa, um duo de virtuoses


Pela segunda vez o pianista Amilton Godoy, ex-Zimbo Trio, e a flautista Léa Freire se unem para tocar juntos num álbum. O primeiro trouxe composições de Léa para piano, colocando Amilton como intérprete. Desta vez, fazem o caminho contrário e o registro traz exclusivamente composições e arranjos de Amilton. O nome do disco, sugestão de Léa, faz referência justamente a esta autoria.

"A Mil Tons" traz dez faixas instrumentais, com direção musical do próprio Amilton. A engenharia de som, mixagem e masterização foi feita por Homero Lotito. As faixas foram gravadas no Estúdio Gargolândia, local propício à inspiração. O resultado evidencia o virtuosismo e a maturidade musical de ambos. O disco sai pelo selo Maritaca, que também assina a produção.


Léa toca flauta transversal em C na maioria das faixas, as músicas "O Batráquio" e "Santa Cecília" são na flauta G, e na inédita "Três Irmãos"  ela utiliza a enorme flauta contrabaixo. A flauta e o piano de Amilton seguem conectados, dialogando em sincronia por todo o disco. Cada faixa revela um desafio diferente e proporciona uma nova descoberta aos ouvidos, alternando entre a execução do tema e a improvisação.

O disco abre com "Choro", música composta na metade da década de 70, com a intenção de fugir dos encaminhamentos comuns desse gênero. Em "Teus Olhos", o movimento varia entre o contemplativo e a agitação da melodia. "Pouca Encrenca" propõe duas ideias distintas que se completam - nela, a flauta dobra a mão esquerda do piano, reforçando a melodia, cujo tema é apresentado de forma sincopada. "O Batráquio", também criada nos anos 70, traz o suingue numa harmonia simples, de dois acordes, que convida à improvisação. "Minha intenção era criar na música brasileira uma ideia de mão esquerda como o boogie-woogie está para a música americana", diz Amilton.

"Estudo em Bb" é conduzida pela flauta, com numerosas escalas que passeiam por toda a sua tessitura, enquanto o piano acompanha. "Santa Cecília", por sua vez, de notas longas e variações no tempo, foi criada em homenagem à padroeira dos músicos. Em "Caucaia do Alto", uma das mais recentes composições do disco, prevalecem cinco notas, com uma construção com três finais diferentes, um preparando para o outro. "Quem Diria", boa para improvisar, tecnicamente desafia a flauta na execução.

Única música inédita no disco, "Três Irmãos" flerta com o blues mas com muito balanço brasileiro, o piano e flauta ficam em diálogo constante. O nome faz referência aos três pianistas da família Godoy (Amilton, Adylson e Amilson Godoy). Nessa faixa Léa toca com a flauta contrabaixo que confere "um sabor todo especial", como ela mesma diz.

"Teste de Som" finaliza o disco como a "hora do recreio" para quem gosta de improvisar.  "Esta música é dedicada ao Zimbo Trio, pois toda vez que tínhamos uma apresentação artística, a passagem de som era feita utilizando esse tema, razão do nome. De harmonia muito simples, possibilita ao músico ficar muito à vontade para criar tendo sua estrutura como base", afirma Amilton.

"Amilton não deixa nada largado, uma frase musical, uma ideia rítmica, sempre voltam, se desenvolvem, às vezes modificados, às vezes disfarçados, mas jamais esquecidos. Já a execução é um desafio sempre, soa fácil, mas é difícil. Suas composições instigam, passeiam pela flauta toda e oferecem a prazerosa alegria de improvisar", diz Léa.

Léa fala sobre Amilton

"O Amilton Godoy é um dos maiores músicos que este país já produziu. Por todos os pontos de vista que se olhe a carreira desse moço é um sucesso. Como líder de um dos trios mais famosos do Brasil, o Zimbo Trio; como pianista erudito, que era chamada pelo Camargo Guarnieri para testar suas partituras para piano e vencedor de vários prêmios; como compositor; como arranjador; como acompanhador de cantores como Elis Regina, Milton Nascimento e Elizeth Cardoso, só para citar alguns, o moço arrasa.

Admirado dentro e fora do Brasil pelo mundo inteiro, não conheço alguém que tenha tido a oportunidade de estar ou tocar com ele sem se encantar com a música e com a pessoa. Seu papel de educador é fantástico, muita gente boa deu a sorte de ter aulas com ele, grupo privilegiado no qual me incluo, muito alegremente. O Clam, onde ainda estudo, é a primeira escola de música popular no Brasil. Aqui ele mostra algumas de suas tão felizes composições, com seus arranjos que tenho o desafio e a alegria de tocar, e seus improvisos tão deliciosos.

É uma honra, um presente do destino, sorte infinita poder realizar esse projeto que revela não só a virtuose, a maestria, o domínio da técnica e o conhecimento harmônico, mas a alma iluminada e criativa desse cidadão Brasileiro da maior importância."

Amilton fala sobre Léa

"Minha admiração pela Léa Freire surgiu quando ela foi estudar no Clam, Escola de Música fundada pelo Zimbo Trio. Com apenas 16 anos de idade, começou a se destacar como um grande talento e no ano seguinte, devido ao seu  desenvolvimento excepcional, foi convidada a fazer parte do corpo docente. Sua musicalidade a diferenciava de tal forma que, constantemente, participava dos grupos formados pelos melhores alunos e também por professores da escola.

Desde então, acompanho seu trajeto musical, que envolve não somente sua evolução como instrumentista e compositora, mas também suas iniciativas como produtora cultural, possibilitando a muitos músicos a chance de mostrarem suas criações através do seu selo Maricata. De todas as suas iniciativas que admiro, o grupo instrumental Vento em Madeira,  liderado por ela, é, sem dúvida para mim, a melhor expressão da Música Brasileira Contemporânea.

Seu amor pelo piano a motivou a escrever uma linda coletânea de suas belíssimas composições para piano solo. Eu me encantei com esses arranjos e em 2013 lançamos um CD ("Amilton Godoy e a Música de Léa Freire"), colocando-me na condição de intérprete procurando reproduzir com a maior fidelidade possível cada nota escrita por ela. São arranjos maravilhosos que, sem dúvida, enriquecem a literatura pianística brasileira. E num gesto de grandeza. ela disponibilizou todos os arranjos para seus colegas pianistas através da internet (www.maritaca.art.br/leafreire/partituras).

Imaginem a minha alegria quando a Léa manifestou interesse em gravar algumas das minhas composições.

Optamos pelo duo, piano e flauta, e com ensaios constantes buscamos o amadurecimento necessário como preparação para gravação. Gostei demais do resultado final. E fiz o que pude, mas a Léa se superou. O seu som, sua maturidade musical, deram às minhas composições uma dimensão que eu não esperava que pudesse ser atingida. É que além de sua qualidade sonora, os seus improvisos têm uma força musical surpreendente e absolutamente perfeitos. É maravilhoso você ouvir de um músico muito mais do que poderia esperar.

Para mim, a Léa está vivendo um ciclo virtuoso e isso a torna uma pessoa irrepreensível. Eu me sinto extremamente motivado por fazer parte desse ciclo e - porque não dizer - até rejuvenescido, toda vez que divido o palco com ela.


Quero agradecer à Léa a oportunidade que tem me dado de poder continuar minha vida profissional fazendo o que eu gosto, do jeito que eu gosto e com quem eu gosto. Por fim agradeço a Deus e peço que ilumine o nosso caminho."

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