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O PMDB vai mudar. Mas só de nome


Agora vai!

O PMDB convocou uma Convenção Nacional para o dia 27 de setembro visando voltar a adotar seu antigo nome: Movimento Democrático Brasileiro (MDB), sigla que usou de 1966 a 1979, ou seja, durante a ditadura militar.

O MDB e a Arena, a Aliança Renovadora Nacional, eram os dois únicos partidos políticos permitidos pelos ditadores.

Na cabeça deles, que deram o golpe - a "revolução", como diziam e dizem seus apoiadores - para salvar o Brasil do totalitarismo comunista, democracia funcionava assim: existem os que apoiam incondicionalmente o regime, e os outros que são contra ele, mas contra de maneira educada, com tato, com jeito, para não ofender os salvadores da pátria.


O MDB, resumindo, era a oposição consentida, uma fachada para dar ao Brasil ares democráticos.

Mesmo assim o partido abrigou em seus quadros oposicionistas de verdade, que chegaram até a formar um grupo, os "autênticos", na agremiação.

Lembro de meu pai, o saudoso capitão Accioly, na Jundiaí de minha juventude, me mostrar nomes que anotou num papel e dizer:

- Esses são os candidatos do PC [o Partido Comunista Brasileiro] para deputado estadual e federal...

Os nomes eram os de Alberto Goldman e Marcelo Gato.

O atual presidente do PMDB, senador Romero Jucá (RR), integrante da quadrilha que se apossou do Palácio do Planalto, há algum tempo defende a mudança de nome. Para ele tirar o "Partido" do nome da legenda vai modernizá-la, o que, é claro, pode resultar em dividendos eleitorais.

Com o seu habitual cinismo, Jucá justificou assim a mudança:

- Estamos resgatando a nossa memória histórica e estamos retirando o último resquício da ditadura dentro do PMDB [ele se refere à inclusão do “P” de partido, uma determinação do regime militar]. Movimento é algo muito mais consentâneo. A gente quer ganhar as ruas, vamos ter uma nova programação, novas bandeiras nacionais e bandeiras regionais.

Mudar de nome não é novidade entre os partidos políticos brasileiros. 

Eles costumam fazer isso quando seus dirigentes percebem que a sigla está desgastada - na cabeça deles partido político é como um produto qualquer a ser consumido pela população, e se as vendas vão mal, o negócio é mudar a embalagem.

A Arena, irmã do MDB, por exemplo, quando começou a ser rejeitada por todo mundo, foi rebatizada como PDS (Partido Democrático Social), que depois virou PFL (Partido da Frente Liberal), que finalmente se transformou no famigerado DEM.

Decisões desse tipo lembram a velha piada sobre o sujeito que não se conformava em se chamar João Bosta e finalmente mudou seu nome para José Bosta.

Mas falando sério: é triste ver no que se transformou, com P ou sem P, um partido que poderia ter sido o principal fiador de uma democracia saudável.

O Brasil precisa de um grande, forte e responsável partido de centro - que obviamente, por motivos mais que conhecidos, não é esse que tem em seus quadros o senador Jucá e tipos iguais ou piores que ele. (Carlos Motta) 

Comentários

  1. Apesar de ser um golpe na historia do partido(ô gente golpista,sô!), acho que estão certos em sair do armário e se assumirem. Que tal PCM,Partido dos Cultivadores de Moita. São especialistas no assunto. Ora, ora! E segue o baile.

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