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O Brasil Novo silenciou a música do festival


O golpe, com tudo o que de ruim trouxe para o Brasil, segue fazendo as suas vítimas.

Dia a dia o país vai se tornando mais pobre, material e espiritualmente.

A inflação cai na mesma velocidade em que a paz dos cemitérios se amplia e domina todos os ambientes.

O medo toma conta daqueles que gostam de ser chamados de "empreendedores".

Poucos, aliás pouquíssimos, se arriscam em investir em seus negócios, preferem aguardar a intervenção do deus ex-machina - ou a mão invisível do mercado - que vai resolver todos os problemas.

Na área artística sobrevivem os "universitários" - sertanejos, sambistas, forrozistas, chorões, todos os ritmos reduzidos a um baticum nivelador da mediocridade.


Iniciativas consolidadas por anos de sucesso, de crítica, marketing e público, se evaporam ao contato dessa ventania pestilenta que arrasa com a nação.

Na página da internet, um comunicado lacônico informa a morte de um dos mais importantes eventos musicais do país, o Festival Etapa de Música de Arte, que se realizava anualmente desde 2007 na cidade de Valinhos, Estado de São Paulo, colada a Campinas.

Nele se apresentou a fina flor da música brasileira: Hélio Delmiro, Paulo Moura, Zimbo Trio, Duo Fel, Banda Mantiqueira, Hector Costita, Raul de Souza, Victor Biglione, Duo Carrasqueira, Badi Assad, Heraldo do Monte, Yamandu Costa, Bocato, Nelson Ayres, Renato Borghetti, Wagner Tiso, Ricardo Herz, Danilo Brito, Roberto Menescal, Ulisses Rocha, Arismar do Espírito Santo, Chico Pinheiro, Eumir Deodato, Laércio de Freitas, Mauro Senise, Rildo Hora, Proveta, Roberto Sion, João Carlos Martins, Romero Lubambo, Cristovão Bastos, Osmar Milito, Hermeto Paschoal, João Donato, Marco Pereira, Hamilton de Holanda, Marcel Powell, Naná Vasconcelos, Antonio Adolfo, Danilo Caymmi, Egberto Gismonti, Carlos Lyra, Carlos Malta, Robertinho Silva, João Bosco...

Tudo isso com ingressos baratos, um teatro confortável, cadeiras numeradas, sem atrasos, sem filas para entrar, coisa de Primeiro Mundo.

É dispensável dizer o que significa, para todos, público e artistas, um festival como esse.

E dói ler o comunicado reproduzido abaixo, que anuncia o seu fim.

Descanse em paz.

Comunicado – Festival Etapa de Música de Arte

Neste ano, como parte do replanejamento de nossas atividades culturais, estamos alterando a periodicidade do FEMA – Festival Etapa de Música de Arte –, que há 10 anos tem sido realizado anualmente sem interrupção.

Com isso, não haverá edição em 2017 do FEMA.

Até 2016 foram realizados cerca de 60 shows, com a presença de mais de 20 mil espectadores, sempre com grande sucesso. Foi uma importante contribuição para o panorama cultural da região, apresentando a beleza da grande música aos muitos que já a apreciavam e a tantos outros que passaram a apreciá-la em #Valinhos e na região de Campinas.

O projeto FEMA sempre foi produzido com investimentos próprios do Etapa, sem nunca contar com apoio de qualquer lei de incentivo. A arrecadação de todas as edições foi transferida para instituições voltadas à comunidade, como a ABEUNI – Aliança Beneficente Universitária de São Paulo, que realiza caravanas de saúde para atender regiões carentes, e mais recentemente a Orquestra Filarmônica de Valinhos, que realizou e segue realizando concertos didáticos gratuitos para a população e divulga a música erudita nas escolas públicas de Valinhos.

Seguiremos, em nossos canais oficiais nas redes sociais – Facebook, YouTube e Spotify – a mostrar tudo de bom que é realizado e também nos inspirando para o que virá no futuro.

Nesse trabalho, realizado a muitas mãos, agradecemos a todos que garantiram a longevidade do evento: aos colaboradores do Etapa Educacional que se dedicaram de forma excepcional – na área de Comunicação e na área Pedagógica –, aos fornecedores e parceiros. Mencionamos especialmente Luiz Amaro, que atuou como curador e produtor do Festival durante toda esta década.

Ao público, nossa gratidão por todo o carinho dispensado.

A todos, um sonoro e musical... até breve.

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