quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O Congresso e a Lei de Murphy


Ninguém pode dizer que o nosso Legislativo não entende de leis.

Legislar em benefício próprio, por exemplo, é uma prática mais que comum entre os nossos congressistas - eles adoram achar modos de melhorar de vida, a deles, é claro.

Também são mestres em exercitar o conjunto de enunciados pragmáticos que se convencionou chamar de "Lei de Murphy".

Um deles parece ter sido feito na medida para os nossos deputados e senadores, que volta e meia se debruçam em sua aplicação: "Nada é tão ruim que não possa piorar."

Tome-se o caso dessa reforma política que está saindo de suas mentes brilhantes.

E o tal "Distritão", em particular.

Ele não é uma beleza?


Ao mesmo tempo em que suprime a necessidade de partidos políticos, já que elege o candidato mais votado, não importa se o seu agrupamento, coletivamente, é irrelevante, ele dá oportunidade para o poderoso negócio de compra de votos funcionar a todo vapor - em tempos de desemprego bravo, essa não deixa de ser uma boa notícia.

Dá até para imaginar como será alta a taxa de renovação do Congresso, esse Congresso que está sendo notícia no mundo todo, não exatamente por sua qualidade.

Ah, mas o "Distritão" vai valer apenas como transição para o sistema definitivo, o Distrital Misto, que deve entrar em vigor apenas a partir de 2022, dizem os seus defensores.

E a polêmica esquenta, enquanto um desses nossos mais que essenciais parlamentares resume o enredo da ópera-bufa da qual participa: “O modelo atual está esgotado. Não dá para fingir que está tudo bem e continuar com o sistema atual."

Pura verdade.

Afinal, o sistema atual fez brotar Bolsonaros e Tiriricas, Cunhas, Malafaias e Felicianos, e toda uma fauna defensora intransigente da família, do poder de Deus, do verde-amarelo da nossa bandeira, e de tudo o mais que a canalhice e a hipocrisia possam abrigar.

Portanto, urge mudar.

Mudar e mudar, em nome da transparência, da democracia, de fazer a vontade do povo ser seguida no Parlamento.

O país precisa de reformas, quanto mais houver, melhor.

Mas, essencialmente, para que a ponte para o futuro não trema, ou, desgraça das desgraças, desabe, é necessário que a renovação seja conduzida e efetuada por quem tem competência para tal.

E quem melhor para isso que este brilhante Congresso que tantos ótimos serviços já prestou à nação?

Que venha, portanto, o "Distritão", o "Distrital Misto", e todo esse aparato normativo que, com certeza, fará o eleitor finalmente ter consciência de seu papel como cidadão - como é que ninguém pensou nisso antes? (Carlos Motta)

Um comentário:

  1. Consciência do papel de cidadão: "o cabo-eleitoral encosta o treiszointão na barriga do eleitor, e entra com êle dentro da cabine: vota no meu candidato, seu safado. Anda logo!"

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