Pular para o conteúdo principal

Uma elite sem cérebro, um país sem futuro


A aprovação da tal "reforma trabalhista" pelo Congresso e a condenação do ex-presidente Lula num dos sabe-se-lá quantos processos abertos contra ele para impedi-lo de concorrer na eleição presidencial  - se houver - de 2018, acabaram por provar, inequivocamente, o quanto a chamada "elite" brasileira é desprovida das famosas "pequeninas células cinzentas" tão prezadas pelo famoso e imortal detetive Hercule Poirot.

Se não, vejamos.


A começar pela "reforma trabalhista", tão desejada pelos patrióticos e supercompetentes empresários brasileiros.

Não é preciso ser nenhum especialista em economia para entender que o fim da CLT vai trazer muito mais malefícios que benefícios ao país - nem é preciso dizer que para o trabalhador é uma catástrofe.

O senador João Capibaribe (PSB-AP) fez um ótimo resumo do que o tal projeto de "modernização" das relações trabalhistas vai provocar, logo depois de ele ter sido aprovado:

"Essa reforma trabalhista não tem uma vírgula a favor do trabalhador. É uma reforma unilateral e é burra, porque é recessiva. A renda do trabalhador vai despencar. E nós aqui estamos surdos, não enxergamos o óbvio."

Segundo ele, a queda da renda levará à diminuição do consumo e da arrecadação da própria Previdência Social. "Este Congresso brincou com a democracia. Não se sai da crise agradando só a um  lado", disse.

Vamos agora ao segundo ponto, a condenação daquele que uma boa parte da sociedade, para achincalhá-lo, colocou nele vários apelidos depreciativos - "Nine", "Brahma", "Molusco" e "Apedeuta" são alguns dos mais ternos -, sintoma do ódio profundo, visceral e patológico, que nutre por sua figura.

A sentença do juiz paranaense é, talvez, uma das peças mais aviltantes da história do direito universal, mas nem é essa a questão que aponta para a sua imbecilidade - pelo menos do ponto de vista daqueles que tramaram e executaram o golpe que liquidou com o pouco de democracia que havia no Brasil.

Ora, Lula é talvez a maior liderança popular que este país conheceu e se há milhões que o odeiam, há outros tantos que o idolatram.

Condená-lo sem provas, apenas por convicções, num processo claramente político, é transformá-lo num mártir.

Não há como prever a reação dessas pessoas que veem nele a única esperança de uma vida melhor.

Fora isso, mesmo que, graças à condenação, Lula fique impedido de concorrer à presidência da República em 2018, não existe a menor garantia de que um candidato apoiado por ele não se eleja. 

Se a intenção não foi essa, mas simplesmente a de humilhá-lo, assassinar a sua reputação, jogá-lo no picadeiro do circo de horrores apreciado por parte da classe média e burguesia do país, o resultado é ainda mais pífio: o deleite pela sua condenação será apenas e tão somente dessas pessoas; do outro lado estará uma massa cada vez mais revoltada com a farsa de uma justiça que pune apenas pobres, pretos, putas e petistas.

Os dois episódios demonstram mais uma certeza: o Brasil está muito longe de se transformar numa nação civilizada e talvez o seu destino seja mesmo o de continuar a ser um gigante bobo, uma colônia dos interesses do grande capital internacional, um imenso Zimbábue, um inferno de pobreza, injustiça e desigualdade. (Carlos Motta)

Comentários

  1. "Este Congresso brincou com a democracia. Não se sai da crise agradando só a um lado", disse.
    Muito suave e distante da realidade. Estamos é sob ataque de uma turba de psicopatas, com sérissimas consequências para a Nação. A fome, a miséria e a falência do Estado já se prenunciam, sob o olhar paciente dos que acham que vão sobreviver. Ledo engano, todos sucumbiremos.Os que não se rebelarem com veemência, serão coniventes e tratados como covardes pelo Povo e pela história.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Pátria deseducadora

A arte popular brasileira ganha um livro

"Eu me ensinei: narrativas da criatividade popular brasileira" é ao mesmo tempo um livro de arte e um compêndio raro sobre a obra de 78 artistas autodidatas de todo o país. “Eu me ensinei sozinha”, frase cunhada por Izabel Mendes da Cunha, conhecida como Dona Izabel, representa, com clareza, a síntese da categoria que aglutina os artistas do livro. A obra será lançada no dia 7 de dezembro de 2017, às 18h30, na Livraria Martins Fontes – Avenida Paulista, 509, em São Paulo. 
Autoria e projeto editorial de Edna Matosinho de Pontes, a publicação bilíngue (português e inglês), 464 páginas, editada pela Via Impressa Edições de Arte, além de registrar a vida e obra dos artistas relacionados, traz um ensaio aprofundado sobre a questão da arte popular, de Ricardo Gomes de Lima, e texto de apresentação assinado por Fabio Magalhães. 

Com seu arsenal de conhecimento sobre essa expressão artística nacional, acumulado ao longo de 30 anos como estudiosa, colecionadora e galerista, Edna Ponte…

Juiz de direito, guitarrista. E criador de um festival internacional de música

Carlos Motta
A vida de músico não é fácil no Brasil. Da mesma forma, não é para os fracos a tarefa de promover a música num ambiente dominado por uma indústria que odeia a qualidade. Mesmo assim há pessoas que se dedicam simultaneamente à vida artística e à extenuante missão de levar cultura ao público. 

Haja fôlego, haja coragem, haja vontade.

A situação se complica ainda mais quando essa pessoa exerce uma profissão que exige uma atenção constante, quase como um sacerdócio. 

Esse é o caso o doutor José Fernando Seifarth de Freitas, juiz da Vara da Família em Piracicaba, importante cidade do interior paulista, que também é Fernando Seifarth, violonista dos mais respeitados entre o pessoal que toca o jazz manouche, ou cigano, gênero que nasceu da genialidade do belga Django Reinhardt, lá nos anos 30 do século passado e rapidamente se espalhou pelo mundo todo. 

O juiz de direito e o músico, provando que muitas vezes querer é poder, se fundiram há alguns anos para criar um dos mais interessan…