segunda-feira, 3 de julho de 2017

A falta que faz ao Brasil o João Sem Medo


O brasileiro João Alves Jobim Saldanha, nascido há exatos 100 anos em Alegrete, no Rio Grande do Sul, está sendo homenageado país afora pela sua importância para o futebol e o jornalismo - os mais velhos certamente não se esqueceram da seleção que montou, base daquela que, sob a direção de Zagallo, sagrou-se tricampeã mundial, em 1970, no México, e de suas crônicas e comentários em jornais, emissoras de rádio e de televisão.

O pessoal dessa geração provavelmente conhece muitas histórias que cercam a trajetória de vida desse brasileiro, que recebeu de um de seus mais famosos amigos, o também jornalista, igualmente fanático por futebol, Nelson Rodrigues, o epíteto de "sem medo".

Há vários casos que se tornaram lendas: a perseguição, revólver em punho, a Manga, então goleiro do Botafogo; a invasão da concentração do Flamengo, também de revólver em punho, para tirar satisfações de seu técnico, Yustrich, que o havia criticado; a briga com o cartola e bicheiro Castor de Andrade, em plena transmissão do programa de TV Revista Facit; e a resposta que deu a um jornalista que o informou que o presidente da época, o tenebroso general Médici, queria que ele convocasse para a seleção o centroavante Dario, o Dadá Maravilha ("O presidente manda no seu ministério, na seleção mando eu").

Mas é uma das histórias menos conhecidas que dá a dimensão do caráter do João Sem Medo, que foi um ativo integrante do Partidão, o Partido Comunista Brasileiro, e um inimigo feroz da ditadura militar - a recíproca era verdadeira, os militares e apoiadores do regime também o odiavam.

Ela se passou em 1987 e envolveu a empregada doméstica que trabalhava para a sua família, Josefa Eduardo do Amaral, a dona Zefa, que foi comprar pilhas para um brinquedo que João trouxera do Paraguai para sua neta. As pilhas estavam com defeito, e ao voltar à drogaria onde as comprara para trocá-las, dona Zefa foi maltratada pelo gerente, um português de nome Ibajones Lemos Leão. 

Ao saber do que se passara, João não teve dúvida: foi à farmácia resolver o caso.

Como o gerente se recusou a trocar as pilhas defeituosas ou a devolver o dinheiro, João chamou-o de ladrão e ao ver que o homem, com a ajuda de outros dois, partia para cima dele, sacou o seu revólver, um Colt 32 que chamava de "Ferrinho", e deu um tiro no chão para assustá-los. 

No fim da história, todo mundo foi para a delegacia, e lá, João resumiu aos jornalistas o que se passara:

- A vítima aqui sou eu e dona Zefa. Se ela fosse loura, talvez ele [o gerente da farmácia] até trocasse a pilha. Mas como é velha e crioula, é esse desrespeito.

O resultado da confusão foi um processo, do qual ele acabou absolvido.

João Saldanha, ou o João Sem Medo, morreu no dia 12 de julho de 1990, em Roma, onde estava a trabalho para a Rede Manchete, cobrindo a Copa do Mundo.

Dá para imaginar quantas histórias ele ainda viveria se tivesse nascido mais tarde e estivesse vendo o seu Brasil ser destruído por essa quadrilha que tomou de assalto o Palácio do Planalto.

Um dos maiores problemas do país é justamente esse: a falta de quem, a exemplo desse João centenário, não tenha medo. (Carlos Motta)




Um comentário:

  1. É verdade prezado Motta. Poucas pessoas se lembram do genial João Saldanha, jornalista e entendido como ninguém da arte do futebol. Hoje em dia, o que mais se vê, são saudosos de Frei Serapião. Como era grande!

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