quarta-feira, 21 de junho de 2017

O voo dos pássaros e o comportamento dos homens


Morar numa cidade tranquila como Serra Negra, interior de São Paulo, faz com que a gente observe com muito mais atenção certas coisas que antes, na confusão da metrópole, passavam despercebidas.

O voo dos pássaros é uma delas.

Vejo, da janela do quarto que transformei num escritório, os urubus planando, com uma graça incomparável, em círculos cada vez maiores - o céu, azulíssimo, sem nenhuma nuvem, destaca seus vultos negros.

Algumas vezes o topo do edifício de frente ao meu recebeu a visita de altaneiros gaviões.
Pousados na beirada da caixa d'água, observavam, com a atenção dos predadores, tudo ao seu redor. 

Depois, se lançavam ao espaço, num voo que lembra o dos urubus, suave, com a impavidez dos fortes.


Ao contrário, as andorinhas parecem tomadas de um frenesi inexplicável. 

Dão voltas impossíveis, sobem e descem como malucas, batem as pequenas asas desesperadamente, da mesma maneira que as verdes, ruidosas e escandalosas maritacas, que surgem em bandos de manhãzinha. 

Outro dia um casal de tucanos surgiu nesse prédio da frente. 

Os dois ficaram juntos alguns minutos, depois cada um foi para uma extremidade do telhado. 

Com aqueles bicos amarelos enormes pareciam contrariar as leis da aerodinâmica quando se jogaram no ar.

Mas seu voo é fácil, parece até o dos urubus e dos gaviões.

De vez em quando aparecem pássaros estranhos, de formas bizarras, como a nos lembrar que a diversidade e complexidade da natureza são desafios constantes para o intelecto sempre curioso do homem.

Mas, por mais que tente ser original em suas conquistas, especulações e descobertas, a natureza ainda guia os passos da espécie humana.

É o caso deste Brasil de hoje, à beira de um desastre de proporções inimagináveis.

As nossas lideranças, ou aqueles a quem foi destinado cuidar dos destinos da nação, se portam tais quais os urubus, gaviões, tucanos, andorinhas, maritacas, e outros pássaros indistinguíveis aos olhos do leigo, que povoam os arredores do meu prédio.

Alguns voam em ziguezague, sem saber aonde ir; outros apenas pairam nas alturas, observando o movimento da massa ordinária e preparando suas próximas ações.

E há os que, como as corujas, preferem ficar entocados de dia para dominar a noite com seus voos velozes e pios agudos.

É a hora em que saem à caça, mortais, implacáveis, tão diferentes da imagem bonachona com que se mostram de dia. (Carlos Motta)

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