terça-feira, 20 de junho de 2017

Desunidos, venceremos!


O incidente aeroideológico protagonizado pela jornalista Miriam Leitão dias desses trouxe à tona um velho debate das esquerdas brasileiras: a global recebeu a solidariedade de boa parte do chamado "campo progressista", enquanto a outra porção não só continuou a esculachá-la, como estendeu a bronca àqueles que a defenderam.

Já ouvi umas mil vezes que, por mais que pareça o contrário, o pessoal da direita está sempre unido quando é preciso, e o da esquerda briga até quando concorda em alguma - rara - coisa. 

Por isso, toda essa discussão sobre achar certo ou não dar um escracho na multicomentarista não surpreendeu quem acompanha, ao menos minimamente, a política nacional.

A divisão das esquerdas é histórica, vem desde sempre.


Um partido como o PT, por exemplo, é, desde sua fundação, uma tremenda zona. 

Há de tudo entre seus militantes: trotskistas, stalinistas, maoistas, cristãos, observadores de OVNIs, adoradores do Sol, porra-loucas de variados graus.

Escolha um tipo - e você vai encontrar lá.

Na Jundiaí da minha juventude, lembro bem, nas primeiras reuniões do diretório local do PT, no início dos anos 80 do século passado, o pau comia solto entre aquela dúzia de idealistas que tentava, missão impossível, levar uma mensagem socialista à sociedade mais que conservadora da cidade.

Metade do pessoal era ativista do grupo, uma quase seita, que se denominava "Convergência Socialista", que acabou saindo do partido para fundar o seu próprio, o maluquíssimo PSTU, e a outra metade era a dos "burgueses", vários estudantes e jornalistas, um arquiteto, um médico, um publicitário...

Não havia jeito de essas duas turmas entrar num acordo, qualquer coisa suscitava uma discussão interminável, parecia que os adversários não estavam fora da minúscula sede do diretório, saqueando a cidade, mas sim ali, naquele momento, prontos para se atracar, para resolver as diferenças no melhor estilo John Wayne.

Isso foi há muito tempo.

E parece que nada mudou.

Nem o horror vivido pelo Brasil atualmente parece capaz de unir as esquerdas, ou de fazer com que elas concordem pelo menos em algum ponto, sei lá eleições diretas, ou qualquer coisa que nos faça acreditar que o pesadelo vai acabar algum dia.

Sempre há uma Luciana Genro para ser do contra, ou um bicão tipo Ciro Gomes a criar polêmicas.

Enquanto isso acontece, os tubarões nadam tranquilos no mar da desesperança nacional, abocanhando, despreocupadamente, cardumes inteiros de apetitosas sardinhas.

O oceano teima em se manter revolto, os capitães dos barcos não veem terra à vista, e os gritos de socorro são abafados pelos trovões de pesadas nuvens que prenunciam cataclismas. (Carlos Motta)

Um comentário:

  1. Francamente prezado Motta,depois de sobreviver milagrosamente e chegar nos sessenta, cheguei a seguinte conclusão: nesse país do vale tudo, assolado por vigaristas de todo tipo,só consegue sobreviver quem estiver vinculado a uma instituição armada. Sómente assim se consegue defender um minimo de dignidade. Se um jovem me perguntar que carreira deve seguir, não exito em responder: Forças Armadas e Policia. Politicamente é impossivel mudar alguma coisa. É jogar conversa fora. O golpe está ai. Os ladrões não permitem que haja justiça. Jogaram a Constituição no lixo, e vai ficar por isso mesmo.

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