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Uma Dinamarca passa por debaixo da mesa


Marcelo P. F. Manzano 

Os acontecimentos políticos da semana passada, patrocinados pelos donos da JBS, trouxeram à tona de forma dramática as vísceras do capitalismo brasileiro. Os canais subterrâneos que interligam o poder econômico ao poder político nos foram revelados em horário nobre e por todos os meios de comunicação.

Mas é curioso que em meio a tantas revelações, tantos bilhões circulando de mão em mão, quase ninguém do MPF, da Justiça, da Globo ou da Folha de São Paulo queira saber de onde vem afinal essa dinheirama?

São fartas as denúncias de uso de caixa 2 para financiar a campanha e a vida dos poderosos e é fundamental que possamos corrigir e oxalá eliminar essas mazelas que fragilizam esta já precária democracia em que estamos metidos. Contudo, por que, afinal, ninguém quer falar de onde é que o grupo JBS, os mamutes da Odebrecht ou da OAS tiraram esse oceano de dinheiro não contabilizado para comprar leis e governos que lhes favoreçam?


Ora, ora, sabemos desde sempre que os fazendeiros brasucas não têm o costume de declarar os milhares de boizinhos que mantêm no pasto e que por isso chegam à nossa mesa a preços camaradas. Sabemos também que a fina flor da família brasileira – tanto quanto os gerânios de ocasião – não é lá chegada em declarar os ganhos de capital que aufere com a venda de casas nos Jardins, nem muito menos os alugueis das salas comerciais com os quais garantem a vida fácil de seus descendentes.

Convenhamos, esse malcheiroso oceano de caixa 2 que agora ameaça dissolver nosso futuro é o desfecho inevitável de nossos pequenos pecados argentários. Brota em forma de riachinho do bolso maroto de “gente de bem” e necessariamente vai se acumular em alguma larga barragem, sob a guarda de um grande e liso tubarão branco. 

A grana escusa do Joesley ou dos Odebrecht só pode ser escusa porque foi antes pagamento escuso na mão de outro, o qual, por sua vez, a escondia em contabilidade paralela que era alimentada por pagamentos de outros fulanos menos famosos, que talvez aceitaram vender um imóvel com valor diferente do declarado ao fisco, parte em grana, parte parcelado.

Claro que, reduzidos à nossa pequenez, nós, cidadãos comuns, não costumamos perder o sono por conta dos efeitos nefastos que decorrem do desconto pelo pagamento sem recibo para o dentista na semana passada. Mas não custa lembrar: de acordo com os cálculos do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (ETCO), a somatória de todas estas maracutaias que circulam anualmente de forma subterrânea no Brasil corresponde a estrondosos 16,2% do PIB (R$ 989 bilhões em 2016). 

É essa massa de grana – equivalente ao PIB da Dinamarca! – que, ao fim e ao cabo, vai brotar do lado de lá do sistema, corrompendo autoridades de diferentes poderes para garantir privilégios a uns poucos em detrimento dos interesses difusos do país, entre os quais os nossos. (Fundação Perseu Abramo)

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