segunda-feira, 22 de maio de 2017

O fim das mesóclises


E no fim nem as mesóclises resistiram.

O vice decorativo, alçado à condição de executor das mais profundas "reformas" jamais vistas nesta pobre república, não resistiu a uma conversa de um ardiloso empresário - conversa na qual não empregou, em nenhum momento, o desusado recurso gramatical de encaixar o pronome no meio do verbo.

Ao contrário, visto na intimidade, ele se revelou um homem tão absolutamente ordinário, tão igual aos seus colaboradores, notórios safardanas, que ficou pairando no ar uma questão que se mostra fundamental para todos os que se preocupam com a vida nesta miserável nação: como, afinal, foi possível que um homem dessa estatura ínfima chegasse onde chegou? 


O que fizemos de errado ao permitir que as mesóclises se sobrepusessem às palavras duras, essenciais, necessárias, tristes e doloridas, de milhões de pessoas, essas sim, que estão na raiz da pátria?

Como pode um povo ser enganado dessa maneira, ser conduzido como gado, sem um mugido, para o abatedouro?

E por que, vistas as entranhas do poder em toda a sua nauseabunda putrefação, elas ainda não foram incineradas e reduzidas a cinzas, num ato de purificação?

Estranho país este nosso, que se permite ser saqueado, vilipendiado e corrompido por uma súcia, e ainda louvá-la como se fosse a "elite" possuidora de refinado conhecimento, inesgotável sabedoria, elevada cultura, e não apenas e tão somente, de uma riqueza formada à custa da espoliação dos miseráveis, aos arranjos criminosos e clandestinos, e à jogatina na roleta da especulação. 

Nos palácios brasilienses vaga hoje o fantasma daquele que pretendeu ser, com sua alocação acaciana, o porta-voz dessa estrutura secular de poder, o homem que recolocaria o país nos trilhos que levam ao atraso, à dependência, à pérfida divisão de classes, à vergonhosa desigualdade social.

Esse espectro, nu, desprovido de suas roupas caras e da máscara de distinção que usou por décadas, representa, de certa forma, toda a espécie dos endinheirados que não permite, nunca, que o país suprima, na sua voz cotidiana, a linguagem empolada dos patifes. 

Foram-se as mesóclises; permanece, todavia, a cacofonia de uma casta cruel, que não permite objeções em seu projeto de dominação. (Carlos Motta)

2 comentários:

  1. Me desculpe prezado Motta, mas vou escancarar geral: o Mesóclise se fuder-se-eu.E dane-se a gramática.

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  2. A direita provou que não passam de um bando de "malandros côcô". Ainda bem! Se tivessem se unido em tôrno do respeito à Constituição, e na manutenção do resultado das eleições, nada disso estaria acontecendo. Morcêgo esperto, não se expõe ao sol. Agora é arrumar o quartinho. Na papuda.

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