segunda-feira, 1 de maio de 2017

Flores não mancham blusas de cashmere


As fotos do prefeito paulistano jogando no chão, com expressão de fúria, as flores que uma ciclista lhe ofereceu, em homenagem aos "mortos nas marginais", referência ao aumento de acidentes naquelas vias depois de decretada a ampliação do limite de velocidade, revelam com exatidão a personalidade do "João Trabalhador", como o misto de empresário, apresentador de TV, político e "gestor", gosta de se denominar.


Fosse ele tão inteligente como lhe atribuem seus admiradores, sua reação teria sido diferente. Poderia, como homem civilizado que pretende ser, simplesmente agradecer o gesto da cicloativista e dizer, por exemplo, que as flores representavam muito mais o seu esforço para tornar a cidade linda, slogan de um de seus programas de governo mais visíveis, do que qualquer outra coisa.

Haveria, é claro, partindo de alguém de uma inteligência tão superior, dezenas de outras respostas ao ato da ciclista que tornariam a sua manifestação irrelevante do ponto de vista de propaganda negativa - é importante lembrar que o João Trabalhador é tido e havido como um gênio do marketing.

Mas não foi isso o que ocorreu.

O gesto de, primeiro aceitar as flores, achando que elas fossem lhe homenagear, e depois, furiosamente, jogá-las no chão, depois que soube de sua simbologia, desnudou por completo o seu caráter, ou seu temperamento, ou, para simplificar, o João sem a máscara de trabalhador.

As justificativas de sua assessoria para o seu gesto, em vez de amenizar o simbolismo das imagens, apenas reforçaram a percepção de que o João Trabalhador é, na verdade, o João Mimado, o João Que Não Pode Ser Contrariado, o João Que Não Aceita Críticas - o João Valentão da belíssima música de Dorival Caymmi, que é "brigão", "dá bofetão", "a todos intimida", desde que esteja acompanhado de guarda-costas.

"O prefeito apenas reagiu a um gesto invasivo e desnecessário", escreveram seus assessores.

Bem, se ele acha que alguém lhe oferecer flores, seja por qual motivo for, é algo invasivo e desnecessário, o que esperar dele quando esses símbolos de afeto, beleza e carinho forem trocados por vegetais que expressem menos sentimentos amorosos e mais reações de desprezo e cólera, como, para exemplificar, tomates podres?

Flores, quase sempre, não conseguem manchar blusas de cashmere.

Já tomates podres... (Carlos Motta)

Um comentário:

  1. Tomate podre, ôvo podre, côcô de galinha, repolho estragado, feijão azedo.... daí êle vai imitar o Trump, e dizer que trabalhador tem arsenal de armas químicas. Se jogar côcô mesmo, vai dizer que é ataque nuclear. Que fresco!

    ResponderExcluir