Pular para o conteúdo principal

Flores não mancham blusas de cashmere


As fotos do prefeito paulistano jogando no chão, com expressão de fúria, as flores que uma ciclista lhe ofereceu, em homenagem aos "mortos nas marginais", referência ao aumento de acidentes naquelas vias depois de decretada a ampliação do limite de velocidade, revelam com exatidão a personalidade do "João Trabalhador", como o misto de empresário, apresentador de TV, político e "gestor", gosta de se denominar.


Fosse ele tão inteligente como lhe atribuem seus admiradores, sua reação teria sido diferente. Poderia, como homem civilizado que pretende ser, simplesmente agradecer o gesto da cicloativista e dizer, por exemplo, que as flores representavam muito mais o seu esforço para tornar a cidade linda, slogan de um de seus programas de governo mais visíveis, do que qualquer outra coisa.

Haveria, é claro, partindo de alguém de uma inteligência tão superior, dezenas de outras respostas ao ato da ciclista que tornariam a sua manifestação irrelevante do ponto de vista de propaganda negativa - é importante lembrar que o João Trabalhador é tido e havido como um gênio do marketing.

Mas não foi isso o que ocorreu.

O gesto de, primeiro aceitar as flores, achando que elas fossem lhe homenagear, e depois, furiosamente, jogá-las no chão, depois que soube de sua simbologia, desnudou por completo o seu caráter, ou seu temperamento, ou, para simplificar, o João sem a máscara de trabalhador.

As justificativas de sua assessoria para o seu gesto, em vez de amenizar o simbolismo das imagens, apenas reforçaram a percepção de que o João Trabalhador é, na verdade, o João Mimado, o João Que Não Pode Ser Contrariado, o João Que Não Aceita Críticas - o João Valentão da belíssima música de Dorival Caymmi, que é "brigão", "dá bofetão", "a todos intimida", desde que esteja acompanhado de guarda-costas.

"O prefeito apenas reagiu a um gesto invasivo e desnecessário", escreveram seus assessores.

Bem, se ele acha que alguém lhe oferecer flores, seja por qual motivo for, é algo invasivo e desnecessário, o que esperar dele quando esses símbolos de afeto, beleza e carinho forem trocados por vegetais que expressem menos sentimentos amorosos e mais reações de desprezo e cólera, como, para exemplificar, tomates podres?

Flores, quase sempre, não conseguem manchar blusas de cashmere.

Já tomates podres... (Carlos Motta)

Comentários

  1. Tomate podre, ôvo podre, côcô de galinha, repolho estragado, feijão azedo.... daí êle vai imitar o Trump, e dizer que trabalhador tem arsenal de armas químicas. Se jogar côcô mesmo, vai dizer que é ataque nuclear. Que fresco!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Pátria deseducadora

A arte popular brasileira ganha um livro

"Eu me ensinei: narrativas da criatividade popular brasileira" é ao mesmo tempo um livro de arte e um compêndio raro sobre a obra de 78 artistas autodidatas de todo o país. “Eu me ensinei sozinha”, frase cunhada por Izabel Mendes da Cunha, conhecida como Dona Izabel, representa, com clareza, a síntese da categoria que aglutina os artistas do livro. A obra será lançada no dia 7 de dezembro de 2017, às 18h30, na Livraria Martins Fontes – Avenida Paulista, 509, em São Paulo. 
Autoria e projeto editorial de Edna Matosinho de Pontes, a publicação bilíngue (português e inglês), 464 páginas, editada pela Via Impressa Edições de Arte, além de registrar a vida e obra dos artistas relacionados, traz um ensaio aprofundado sobre a questão da arte popular, de Ricardo Gomes de Lima, e texto de apresentação assinado por Fabio Magalhães. 

Com seu arsenal de conhecimento sobre essa expressão artística nacional, acumulado ao longo de 30 anos como estudiosa, colecionadora e galerista, Edna Ponte…

Juiz de direito, guitarrista. E criador de um festival internacional de música

Carlos Motta
A vida de músico não é fácil no Brasil. Da mesma forma, não é para os fracos a tarefa de promover a música num ambiente dominado por uma indústria que odeia a qualidade. Mesmo assim há pessoas que se dedicam simultaneamente à vida artística e à extenuante missão de levar cultura ao público. 

Haja fôlego, haja coragem, haja vontade.

A situação se complica ainda mais quando essa pessoa exerce uma profissão que exige uma atenção constante, quase como um sacerdócio. 

Esse é o caso o doutor José Fernando Seifarth de Freitas, juiz da Vara da Família em Piracicaba, importante cidade do interior paulista, que também é Fernando Seifarth, violonista dos mais respeitados entre o pessoal que toca o jazz manouche, ou cigano, gênero que nasceu da genialidade do belga Django Reinhardt, lá nos anos 30 do século passado e rapidamente se espalhou pelo mundo todo. 

O juiz de direito e o músico, provando que muitas vezes querer é poder, se fundiram há alguns anos para criar um dos mais interessan…