sábado, 6 de maio de 2017

E o Brasil real vai se calando


Com a diferença de poucos dias, a música popular brasileira perdeu o cantor Jerry Adriani, um dos protagonistas da "Jovem Guarda", o cantor e compositor Belchior, autor de versos perenes, e Almir Guineto, o sambista completo. 

Estão internados outros dois notáveis artistas, Arlindo Cruz, compositor de mais de 300 sambas gravados por inúmeros cantores, inclusive ele próprio, e Luiz Melodia, um dos principais renovadores da MPB. 

Arlindo se recupera de um AVC e Melodia trata um câncer. 

2017 está sendo um ano terrível.


De um lado, uma crise econômica profunda que caminha ao lado de uma crise política, as duas prejudicando de forma aparentemente irremediável o fiapo de democracia, redução de desigualdades sociais, e projeto de nação que os governos trabalhistas aprofundaram.

De outro lado, uma crise ética e moral, com o governo central expondo as vísceras de um sistema político-partidário profundamente corrupto, Ministério Público e Justiça atuando como milícias ideológicas, e o fascismo caminhando impune em todos os cantos do país, repetindo, em ações violentas e criminosas, o modus operandi que o fez, no passado, mergulhar o mundo no caos e insanidade da guerra.

País de escassos lampejos de inteligência, que se revelam como luzes piscando em profundas trevas de ignorância e estupidez, artistas como esses que deixaram a vida ou estão, ao menos momentaneamente, incapacitados para trabalhar, fazem muita falta.

Todos, cada um ao seu modo, representam o que há de melhor no Brasil.

São a antípoda daquilo que se apresenta como oficial, esses pomposos e ridículos ministros de Estado, secretários de governo, parlamentares, autoridades "sabe com quem está falando?" a granel, doutores formados e titulados em uniesquinas, empresários semialfabetizados, jornalistas que apenas vocalizam a palavra do patrão...

Dá uma tristeza imensa ver que, aos poucos, o país vai perdendo aquilo que o mantém culturalmente coeso, essas vozes que unem compatriotas distantes milhares de quilômetros, e que ajudaram, com sua arte, a moldar a alma de um povo que mistura a ingenuidade das crianças com a criatividade dos adolescentes.

País ainda jovem em todos os sentidos, o Brasil necessita, para atingir a maturidade, que não só a obra de um Belchior, de um Guineto, ou um Adriani, seja perpetuada, mas que surjam outros artistas que sigam seus passos.

O Brasil real não pode ficar refém do Brasil oficial. (Carlos Motta)

Um comentário:

  1. A malandragem dos golpistas é a manjada "dividir para reinar". Enquanto houver o caos, trabalhadores x empresários, pobres x remediados, pcc x cv etc...,vão ficando à vontade para meter a mão no patrimônio e no dinheiro público. Ponte para o futuro é a p............

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