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A miséria volta às ruas


Em cerca de meia hora, no sábado passado (6 de maio), em dois quarteirões da Rua 13 de Maio, centro comercial de Amparo, cidade de 70 mil habitantes do Circuito das Águas Paulista, uns 10 pedintes abordavam os passantes, que ainda tinham de se desviar de uma meia dúzia de camelôs.

A volta desse cenário comum no Brasil dos tempos de FHC, Collor, Itamar, Sarney, e da ditadura militar, quando a miséria era muito mais visível que nos poucos anos em que o trabalhismo esteve no comando do Executivo central, é apenas a ponta do iceberg dos estragos que a recessão econômica provocada pelo golpe jurídico-parlamentar que depôs a presidenta Dilma Rousseff vem fazendo ao país.


Aparentemente, a classe média ainda não sentiu os efeitos mais danosos da crise para o seu bolso. 

Dois exemplos são o próprio centro comercial de Amparo, que estava bastante movimentado no sábado, ou a vizinha Serra Negra, lotada nos últimos três feriadões. 

Os preços das mercadorias das lojas, responsáveis por atrair tantos turistas para o município serrano - sua principal rua é um enorme shopping center ao ar livre -, porém, não aumentaram nos últimos meses, e os dos restaurantes populares caíram: hoje se come em sistema de bufê completo por menos de R$ 20.

Mas os sinais de que a crise já chegou à cidade de 27 mil habitantes começam a surgir: nos fins de semana há pedintes no centro e mesmo o único jornal de circulação periódica, "O Serrano", noticiou, na primeira página, a existência de cerca de 20 moradores de rua no município, algo que não se via ali havia muito tempo. 

E pelo que relatam alguns amigos feicebuqueanos, a situação no resto do país não é muito diferente dessa das estâncias hidrominerais de São Paulo.

A jundiaiense Ana Lucia Oliveira, por exemplo, diz que sua cidade, pouco mais de 400 mil habitantes, a 60 quilômetros da capital, altamente industrializada, "também está assim [como Amparo], fora o semáforo com gente fazendo malabarismo e vendendo balinhas".

O jornalista e professor universitário Adelto Goncalves, ex-Estadão, entre outros órgãos da imprensa, hoje morador de Amparo, relata que voltou ao município "depois de alguns dias em Praia Grande e São Vicente - e a terra do vice-governador [São Vicente] está pior que na Etiópia".

Bea Falleiros, também jornalista e residente na capital, esteve recentemente no país africano, e completa a informação de Adelto: "Vou lhe contar que lá tem muito menos gente na situação de pedinte do que aqui no país do golpe."

Outro morador de Jundiaí, o sindicalista Douglas Yamagata, acha que "ainda que não se chegou totalmente ao fundo do poço, pois a súbita classe média ainda está queimando seus estoques da era Lula e Dilma". Ele acredita que "quando isso acabar, haverá ainda mais pedintes e se engana quem acha que o desemprego irá diminuir, pois este é o instrumento do capital para deixar salários baixos e trabalhadores reféns do patrão".

Já o jornalista carioca Boecio Vidal Lannes dá notícias da situação no Rio de Janeiro: "Nem queiram imaginar como tem camelô aqui. De cada 10 vagas de trabalho fechadas no país, pelo menos 7 são aqui do Rio. Os camelôs se organizam em escala, e fazem fila, para entrar no BRT com o objetivo de evitar a canibalização deles mesmos. Ou seja, estão tentando dividir os lucros fazendo a divisão dos clientes."

Do jeito que está a situação, é quase certo que o Brasil entrou num túnel do tempo, retornando a uma realidade de miséria e desigualdade social que só foi alterada na década e um pouco em que os trabalhistas ocuparam o Palácio do Planalto e tentaram transformar o país numa social-democracia. (Carlos Motta)

Comentários

  1. Oficialmente tiraram a Dilma, porque pegou emprestimo na caixa pra pagar os beneficiários do Bolsa Familia. Os moralistas da máquina pública ficaram horrorizados com a tal "pedalada". Agora, com essa situação indecente de aumento da miséria, não aparece nenhum daqueles fdp's, pra se indignar. Que gente escrôta.

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