quinta-feira, 18 de maio de 2017

A imprensa e a tragédia


Uns poucos parágrafos para entender como funciona a imprensa brasileira, que teve - e tem - um relevante papel nesta tragédia que se abateu sobre a nação:

@ Não existe jornalismo imparcial. Todos os jornalistas, sem exceção, têm lado, têm time, têm preferências, têm preconceitos, porque são humanos, não robôs;

@ Todos os jornalistas que cobrem política sabem, há muito tempo, que esse bando que tirou a presidenta Dilma do Palácio do Planalto é formado por escroques da pior espécie. Se ninguém nunca fez uma mísera reportagem, escreveu uma linha sequer sobre as negociatas desses parlamentares é porque, de certa forma, estiverem aliados a eles, e não porque desconhecessem os crimes;


@ O mercado financeiro pauta o noticiário econômico, "sugerindo" pautas, colocando profissionais 24 horas à disposição dos repórteres, divulgando "análises" e convidando a moçada para cafés da manhã, almoços e jantares nos lugares mais em moda;

@ O mercado empresarial de comunicação é oligopolizado. Poucas empresas, familiares, controlam a informação, ou seja, dezenas de milhões de brasileiros leem, escutam e veem aquilo que algumas dezenas de pessoas permitem e querem;

@ Não existe, nunca existiu, e provavelmente nunca existirá, no Brasil, liberdade de imprensa. Nenhum jornalista apura e publica a notícia que deseja, a reportagem dos seus sonhos, apenas aquela que o seu chefe ordena que saia;

@ Embora os jornalões tenham páginas exclusivas para seus editoriais, a opinião do dono se espalha por quantas notícias forem necessárias, às vezes de maneira sutil, às vezes abertamente;

@ A imprensa brasileira é comercial, ou seja, os grandes - e até mesmo médios e pequenos - anunciantes têm voz forte naquilo que é publicado; 

@ Conheci poucos jornalistas com formação intelectual sólida ou mesmo que dominassem medianamente a língua portuguesa. Em geral tinham pouca leitura, quase nenhum interesse por artes e ciências, e exibiam, quando muito, uma cultura de almanaque. Vários adoravam um "jabá" (presentes de empresas e corporações) e se iludiam com a proximidade exibida por suas fontes - eram ingenuamente usados por elas;  

@ O jornalismo brasileiro é tecnicamente indigente, não por escassez de recursos, mas por ter chefias incompetentes e patronais;

@ É improvável que exista lugar menos democrático que uma redação. Reuniões de pauta são apenas uma formalidade. Os repórteres são obrigados a cumprir ordens, mesmo que absurdas ou aéticas. Se não obedecerem, serão demitidos sem dó nem piedade. (Carlos Motta)

2 comentários:

  1. Francamente prezado Motta, acho que toda essa tranqueira midiatica não engana mais ninguém. Só a êles próprios que se acham muito espertos. Acham mas não são.

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  2. Escrevi estas linhas, comentando seu artigo no blog do Nassif. Rastreei seu blog, então me veio a ideia de postar meu escrito aqui, para agradecer sua preciosa análise do jornalismo.
    Sou Fabiano Formiga, , egresso (aposentado) de uma profissão 'jurídica'.

    Análise rara e precisa.

    sex, 19/05/2017 - 13:03

    Artigo muito estimulante, assim, fiquei refletindo numa outra profissão, que tem em comum com o jornalismo o substrato da sua atividade: a linguagem.

    Esta outra profissão é a do advogado, que, sob este prisma da linguagem, não difere em nada do papel do juiz, do delegado de polícia ou do Ministério Público.

    Uma diferença marcante entre as duas profissões está em que a faculdade de jornalismo não gera uma linguagem própria, nem a impõe aos jornalistas. Basta comparar os estilos de Jânio de Freitas e de Élio Gaspari, digo a sua forma, sua expressão, não o conteúdo.

    No mundo do Direito, o profissional necessita usar certa linguagem, para ser lido e reconhecido como tal. Isso conduz a uma mimésis, um arremedo difuso, todos copiando expressões, tiques, bordões, uns dos outros. Os exemplos não teriam fim: a expressão 'em sede de', nada vernácula, usada pleonásticamente, ao invés de uma simples preposição (em (sede de) mandado de segurança; em (sede de) liminar....). Recentemente, há alguns anos, foi abolida a preposição contra, substituída pela locução 'em desfavor de', ou, 'em face de', para designar o antagonismo das partes no processo. Em nenhum desses exemplos, se sabe quem, que autor, que autoridade seria a fonte.

    Não se trata, entretanto, de gramática ou de estilo ou de usos da língua....trata\-se de uma linguagem que serve de envoltório para qualquer asneira, tanto como para algum pensamento digno do nome. Os exemplos são cotidianos, mas um paradigma dessa ambiguidade é a condenação de um morador de rua, por estar trazendo consigo dois tubos de desinfectante, tidos como explosivos; a interdição do Instituto Lula; a condenação de um homem que cortou de uma árvore alguns fragmentos para fazer um chá......

    Na base da ambiguidade da linguagem usada pelos profissionais do Direito está, paradoxalmente, a crença em que o Direito, as leis, são escritos de modo unívoco, isto é, as palavras teriam apenas um único significado. Esta ilusão de uma linguagem unívoca no Direito enganou Montesquieu:

    "Mais les juges de la nation ne sont, comme nous avons dit, que la bouche qui prononce les paroles de la loi ; des êtres inanimés, qui n’en peuvent modérer ni la force ni la rigueur." Mas os juízes da nação não são, como temos dito, senão a boca que pronuncia as palavras da lei; seres inanimados que não podem moderar nem a sua força nem seu vigor. (Esprit des Lois, Livre XI, Chap.VI)

    A idéia de uma lnterpretação literal, de modo que resultasse sempre no mesmo conteúdo, é a um tempo, ilusão e ideologia. A igualdade e abstração das normas jurídicas repousaria no seu conteúdo - os valores - jamais nos seus enunciados, nunca nos seus significantes.

    Assim, tamanha a largueza na interpretação das leis, não seria necessário que o Tribunal Federal de P.Alegre considerasse excepcionais condutas processuais do juiz Moro. Repita-se, a dicção do Direito reside na ponderação dos valores incritos nas normas, ou, como foi escrito no Digesto: saber leis não é decorar suas palavras, mas extrair sua força e vigor.

    "Scire leges non hoc est verba earum tenere sed vim ac postestatem."

    Sob a aparência (nem sempre) de cumprir leis, os ditos profissionais do Direito aplicam seus valores (de sua classe social), de regra, com inúmeros vetores, como tem sido analisada neste blog a atuação de Moro.

    Bem, não é conveniente me estender mais, senão isso viraria um tratado, coisa que não me disponho a fazer. Os textos em francês e em latim servem para dar autenticidade ao meu escrito, nunca para demonstrar cultura (livresca?).






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    Fabian Bosch

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