terça-feira, 25 de abril de 2017

Vamos acabar com o samba, madame não gosta que ninguém sambe



O novo governante da capital paulista, por tudo que já fez, parece odiar a arte, justo ele, casado com uma escultora.

Depois de destruir os grafites que ajudavam a colorir um pouco a cinza metrópole e congelar metade da verba destinada à cultura, o alcaide atacou com artilharia pesada uma das importantes manifestações musicais do país, dando ordem para desalojar do Teatro Arthur de Azevedo o Clube do Choro.

Não satisfeito, o novo diretor da Biblioteca Mario de Andrade determinou que ela não abrirá mais 24 horas por dia e baniu de seu recinto as rodas de samba e choro, ali habitualmente realizadas.

Assim, rapidamente, São Paulo, uma das maiores cidades do mundo, de uma riqueza artística e cultural inegável e invejável, vai se apequenando, vai se tornando do tamanho de seus administradores.

Essa gente parece viver num mundo à parte, alheio à realidade que a cerca.

O caso do Clube do Choro é emblemático.

A despesa da prefeitura com a sua manutenção deveria ser mínima, ao contrário do desconhecimento da amplitude do choro como manifestação artística não só no Brasil como em vários outros países.

O choro é tocado, como o samba, em praticamente o Brasil todo. 

É um dos principais símbolos da unidade nacional.

Sob seu ritmo se formaram gerações de ótimos músicos.

Há similares ao Clube do Choro paulistano em inúmeras cidades do planeta.

Para quem não sabe, por exemplo, o alegre "Tico Tico no Fubá", apresentado ao público pela primeira vez pelo seu autor, Zequinha de Abreu, em Santa Rita do Passa Quatro, sua cidade natal, em 1917, é uma das músicas brasileiras mais conhecidas da Terra.

As obras de Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Canhoto, Valdir Azevedo, Severino Araújo, Hermeto Paschoal, entre tantos outros artistas que compuseram choros, são estudadas e executadas pelos mais importantes artistas mundiais. 

Mas na capital paulista do prefeito cashmere, o diretor da maior biblioteca da cidade diz, aos jornais, com a maior naturalidade, que detesta chorinho.

Deve também detestar o samba.

No longínquo ano de 1945, Janet de Almeida gravou a obra-prima que compôs com Haroldo Barbosa, cantada até hoje por grandes intérpretes.

"Pra Que Discutir com Madame" é a perfeita definição desses tipos que hoje mandam em São Paulo:



Madame diz que a raça não melhora
Que a vida piora por causa do samba,
Madame diz o que samba tem pecado
Que o samba é coitado e devia acabar,
Madame diz que o samba tem cachaça, mistura de raça mistura de cor,
Madame diz que o samba democrata, é música barata sem nenhum valor,
Vamos acabar com o samba, madame não gosta que ninguém sambe
Vive dizendo que samba é vexame
Pra que discutir com madame.

No carnaval que vem também concorro
Meu bloco de morro vai cantar ópera
E na Avenida entre mil apertos 
Vocês vão ver gente cantando concerto
Madame tem um parafuso a menos
Só fala veneno meu Deus que horror
O samba brasileiro democrata
Brasileiro na batata é que tem valor.

2 comentários:

  1. É prezado Motta. Uma noticia dessas é pra atentar os miolos de quem gosta de musica. Aproveito pra mandar um beijo pra todos os Sambistas amados,(que saudade Vinicius de Moraes,Adoniram Barbosa,Ciro Monteiro e tantos outros que batalharam pelo Samba!) e o prefeito caquético pra "tonga da mironga do cabulete" de chapeuzinho de palha.

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