sexta-feira, 21 de abril de 2017

O país da fofoca


Nos mais de 40 anos que passei em diferentes redações de jornais vi e ouvi muita coisa.

Muita coisa que não foi publicada, que ficou restrita às conversas no cafezinho. 

Até hoje não sei se essas histórias eram verdadeiras ou mentirosas, já que, por absoluta falta de provas elas não se transformaram em notícia.

No jornalismo, pelo menos naquele que vivi, é assim: não adianta o sujeito dizer que foi à Lua montado num tapete voador para que a sua fábula ganhe as páginas do jornal - ou do site na internet.


É preciso que ele prove que a sua narrativa, ou o fato que denuncia, não é simplesmente, uma ficção, uma mentira, uma invencionice qualquer.

Por essas e por outras é que a notícia tem de ser, como se diz no jargão jornalístico, apurada, ou seja, investigada, com a chancela de documentos e fontes diversas.

Sei que o jornalismo de hoje é bem mais, digamos, flexível, do que o de antigamente. Aceita, quando interessa aos seus objetivos, a palavra de qualquer um, publica, sem o cuidado de checar a informação, tudo aquilo que vai de encontro aos seus fins.

Na verdade, o jornalismo é quase inexistente neste Brasil Novo, o que se vê é uma imensa máquina de propaganda a serviço da oligarquia, os endinheirados de sempre.

E o mesmo acontece no Judiciário e no Ministério Público, instituições que deveriam estar totalmente a serviço da verdade factual para que, é óbvio, promovam a Justiça - é para isso que existem e são mantidos pela sociedade.

Miseravelmente, porém, nestes tempos de penúria ética e moral, prescinde-se de provas para condenar, e a investigação foi trocada pela tortura dos réus, que passam anos presos até que confessem aquilo que seus captores querem ouvir.

Pouco importa se o que falam é só uma fofoca, um ouvi dizer, um boato, ou mesmo uma mentira, uma calúnia.

Num país em que cada vez mais esses métodos - medievais, nazistas? - se institucionalizam, não há lugar para a democracia.

Qualquer pessoa com dois neurônios é capaz de entender isso: justiça seletiva não é justiça. E onde não há justiça resta somente a barbárie. (Carlos Motta)

Um comentário:

  1. É prezado Motta. Ela chegou de mansinho, como quem não quer nada. Com outros métodos.Mas voltou. Ela. A ditadura.

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