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Esquerda e direita concordam: governo Temer é ruim e corrupto


O Núcleo de Estudos e Opinião Pública da Fundação Perseu Abramo foi às ruas para acompanhar manifestações dos dia 15 e 26 de março e levantar o perfil dos manifestantes e suas principais demandas e opiniões em relação ao momento político e econômico atual. A pesquisa levantou tendências políticas e adesão aos valores democráticos, com objetivos de medir a temperatura e expectativas de ambos os públicos para os desenlaces do momento atual.  

Os resultados apontam para manifestações bastante distintas. 

A do campo progressista teve perfil mais jovem e diversificado quanto à raça, com renda média familiar em torno de cinco salários mínimos e, dessa vez, com forte participação de funcionários públicos, ameaçados pelas perdas de direitos propostas nas reformas de Temer. 

A do campo conservador, composta principalmente por homens, com idade mais avançada, maior participação de brancos e mais elitizada quanto à renda, identifica-se no espectro político com o centro e com o PSDB. 


Para 93% dos participantes da manifestação do dia 15, o atual presidente Michel Temer está envolvido em casos de corrupção da Operação Lava Jato, e um índice não muito inferior dos manifestantes que apoiam seu governo tem a mesma percepção (87%).

Para quem foi às ruas no dia 15, Temer já desponta como o terceiro governo mais corrupto, apontado por 16%, pouco abaixo de FHC, 22% e Collor (26%). Já entre os manifestantes do dia 26, o governo de Lula foi aquele em que houve mais casos de corrupção (67%). Mas a corrupção no governo Dilma, mesmo entre esse grupo, é comparada à de Collor e Sarney, todos com 8% de menções. 

Pouco mais da metade dos manifestantes da direita (59%) acredita que hoje existem mais denúncias de corrupção porque a prática aumentou desde o governo Lula, mas 31% acham que sempre houve muita corrupção, até mais em outros governo. Essa opinião é mais presente entre manifestantes de esquerda (46%), seguida pela de que hoje há mais denúncias de corrupção porque os governos do PT combateram mais a corrupção (41%).

A maior parte dos que foram às ruas no dia 15 (61%) são a favor de que Temer seja cassado e sejam convocadas novas eleições, com o que 23% dos manifestantes do dia 26, concordam. Nesse grupo, quase a mesma taxa (22%) é a favor de que as forças armadas intervenham destituindo Temer e mudando o governo. 

A opinião de que Temer deve exercer seu mandato até o fim, em 2018, não é majoritária, e mesmo entre seus defensores não ultrapassa 39%. Independentemente da vontade, para cerca de metade dos manifestantes do dia 15 (49%), Michel Temer não vai terminar o governo e cerca de um terço (31%) dos que o apoiam também tem essa sensação, enquanto 63% acreditam que Michel Temer vai concluir o mandato.

Em ambos os estratos, a avaliação positiva do governo atual é baixa, não ultrapassa 13% entre os que foram as ruas dia 26. Quase a totalidade dos manifestantes do dia 15 (95%) considera o governo atual ruim ou péssimo, avaliação que também predomina entre os manifestantes do dia 26, com índices inferiores, mas ainda bastante elevados (49%). Para 55% deles, Temer não está cumprindo o que prometeu, opinião com que compartilham 72% dos manifestantes da esquerda.

Na opinião de 35% dos manifestantes da esquerda, o Congresso Nacional é o principal responsável pela crise política que o Brasil está vivendo. Atribuem essa responsabilidade a todos os membros do governo atual 17% e  outros 13% a atribuem a Temer. Entre os manifestantes que apoiam o governo, um terço (34%) acha que Lula é o principal responsável, 27% consideram o Congresso Nacional o principal responsável e 15% todos os membros do governo anterior.

A maior parcela dos manifestantes da esquerda (38%) não sabe quem poderia resolver a atual crise política que o Brasil está vivendo, mas 28% consideram que Lula seria capaz de resolver essa crise. Entre os manifestantes que apoiam o governo, a principal esperança de solução para a crise está em Moro (39%), 30% não sabem e somente 1% veem competência em Temer para solucionar a atual crise política.

Se houvesse novas eleições para presidente da República hoje, 54% dos que foram às ruas no dia 15 de março votariam em Lula, 14% votariam em branco ou nulo, 12% em Ciro Gomes e 9% em Marina Silva. Entre os manifestantes do dia 26, 26% votaria em Jair Bolsonaro e o mesmo índice em branco ou nulo, Geraldo Alckmin teria 18% dos votos e até Lula (6%) e Marina (5%) teriam mais votos desse público do que Aécio (4%).

Ambos os públicos manifestantes demonstram muito interesse em acompanhar a política (49%, no dia 15 e 46%, no dia 26) e sempre conversam sobre política (56% e 51%, respectivamente). Ambos apontam a internet como o principal meio utilizado para se informar sobre política (54% e 49%).

A maior parte dos manifestantes do dia 15 (77%) se posiciona no espectro político como de esquerda. Entre os manifestantes do dia 26, 44% se disseram de direita e 32% de centro. Mas ambos os grupos concordam majoritariamente que a democracia é sempre a melhor forma de governo (90% entre os que foram às ruas dia 15 e 80% no dia 26), sendo que os da esquerda têm maior adesão ao debate democrático. Concordam que pessoas que têm ideias diferentes da maioria da população podem tentar convencer os outros (59%), opinião com a qual uma parcela inferior (45%) dos manifestantes da direita concorda. São também bastante favoráveis a que quem tem ideias diferentes da maioria possa ter suas ideias desde que não tentem convencer os demais, opinião defendida por apenas 28% do campo progressista.

Para todas as ideias testadas, o campo da esquerda demonstrou-se mais democrático. Há maior concordância com que aqueles que defendem ideias diferentes da maioria possam tentar convencer os demais. Os aspectos em que os dois grupos mais se diferenciam é quanto à defesa da ideia de que casais de gays e lésbicas possam adotar crianças: 56% dos da esquerda defendem que quem pensa assim tem o direito de defender sua opinião, contra apenas 37% da direita. 

A ideia de que Deus não existe também é defensável para 44% dos de esquerda, contra apenas 28% dos de direita. A ideia que parece menos defensável à esquerda é a de que em certas ocasiões é melhor uma ditadura do que um regime democrático. Dos manifestantes da esquerda, 34% admitem que quem tem essas ideias pode defendê-las, assim como 33% dos da direita.

No entanto, ser a favor do debate democrático não implica estar de acordo com as ideias. Entre as ideias apresentadas, aquela na qual os dois grupos mais divergem é quanto à adoção da pena de morte no Brasil, contraposta por 80% da esquerda, frente a  52% da direita, sendo que 43% desse grupo apoiam a pena de morte. Em algum grau, 83% da esquerda discordam de que em certas situações é melhor uma ditadura do que um regime democrático, o que tem a concordância de 31% da direita contra 63% discordantes.  

Outro ponto polêmico é a lei do desarmamento. Na esquerda, 66% são favoráveis, contra 47% da direita. E também a possibilidade de adoção de crianças por casais homossexuais, ao que 78% da esquerda é favorável, contra 62% da direita. Cerca de um terço da esquerda (32%) e 16% da direita concordam com a ideia de que Deus não existe. 

A grande maioria dos manifestantes tanto da direita quanto da esquerda é a favor das manifestações públicas. Já as greves organizadas por sindicatos dividem opiniões, com 92% da esquerda totalmente a favor, contra apenas 37% da direita, assim como as ocupações de prédios públicos, que 69% da esquerda defendem totalmente  contra apenas 13% da direita.

Por fim, esquerda e direita também divergem em relação aos programas sociais, como o Bolsa Família. Acham que as pessoas que recebem o benefício ficam preguiçosas 71% da direita, opinião que apenas 22% da esquerda compartilham. A opinião de que em situações de muita desordem os militares devem ser chamados a intervir tem 75% da direita a favor, contra apenas 33% da esquerda. (Vilma Bokany, socióloga/Fundação Perseu Abramo. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

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