Pular para o conteúdo principal

Eu, "pejotizado"


Por pouco mais de três anos tive a infeliz experiência de trabalhar não exatamente como terceirizado, mas como "pejotizado", ou seja, obrigado a apresentar notas fiscais de pessoa jurídica para receber, mensalmente, a minha remuneração como editor-assistente do "Valor Econômico".

Só pude trabalhar no "Valor" pela segunda vez, meses depois de ter-me demitido do Estadão, sob essa condição.

De cara me avisaram que quem era contratado entrava numa fila de regularização trabalhista, ou seja, os mais antigos eram os primeiros a ter o privilégio de ter o emprego registrado na Carteira Profissional.

O trabalho na condição de "pejotizado" podia durar um ano, dois anos... Tudo dependeria da condição financeira da empresa.


Também me avisaram que não teria direito ao pagamento de férias, nem a 13º salário, INSS ou FGTS. 

Mas poderia tirar 30 dias de descanso - sem pagamento.

Lógico que, nessas condições, me senti um empregado de segunda categoria, pois, no frigir dos ovos, fazia o mesmo que meu colega ao lado, mas ganhava a metade.

Lógico também que não tinha a menor condição de negociar qualquer coisa, já que o mercado de trabalho do jornalista era, e continua sendo, cada vez mais, um campo de batalha sangrento, onde apenas os mais fortes sobrevivem.

Fiquei uns dois anos nesse limbo até que me avisaram que eu era o próximo da fila dos afortunados que seriam regularizados pela CLT.

Foi então que pedi para ficar mais um ano "pejotizado".

Afinal, esse era o tempo necessário para que pudesse sacar o dinheiro da minha conta inativa do FGTS.

A empresa aceitou na hora.

Um ano depois, fui devidamente "contratado", mas como só trabalhava na empresa havia três anos, e meus chefes não deveriam ainda saber se eu era ou não do ramo, o registro foi "de experiência", por 90 dias.

O contrato definitivo durou seis anos, até eu ser incluído, com mais uns 50 colegas, numa lista de demissões.

Fui dispensado num mês de junho.

Dois meses depois era chamado para ajudar a editar alguns suplementos especiais no mesmo "Valor" que havia me demitido.

Claro que, novamente, "pejotizado". (Carlos Motta)

Comentários

  1. Depois de passar mais ou menos uns 30 anos pejotizado, e observando várias empresas, cheguei a seguinte conclusão em meu estudo sociológico: para ser contratado na iniciativa privada, com carteira assinada, o trabalhador precisa ter pelo menos um dos três seguintes atributos: ser viado, ou ser ladrão, ou ser drogado. Ou os três claro. Mas é difícil encontrar êsse triplo perfil nas empresas. Êles porem são muito comuns nos altos escalões do governo.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Pátria deseducadora

A arte popular brasileira ganha um livro

"Eu me ensinei: narrativas da criatividade popular brasileira" é ao mesmo tempo um livro de arte e um compêndio raro sobre a obra de 78 artistas autodidatas de todo o país. “Eu me ensinei sozinha”, frase cunhada por Izabel Mendes da Cunha, conhecida como Dona Izabel, representa, com clareza, a síntese da categoria que aglutina os artistas do livro. A obra será lançada no dia 7 de dezembro de 2017, às 18h30, na Livraria Martins Fontes – Avenida Paulista, 509, em São Paulo. 
Autoria e projeto editorial de Edna Matosinho de Pontes, a publicação bilíngue (português e inglês), 464 páginas, editada pela Via Impressa Edições de Arte, além de registrar a vida e obra dos artistas relacionados, traz um ensaio aprofundado sobre a questão da arte popular, de Ricardo Gomes de Lima, e texto de apresentação assinado por Fabio Magalhães. 

Com seu arsenal de conhecimento sobre essa expressão artística nacional, acumulado ao longo de 30 anos como estudiosa, colecionadora e galerista, Edna Ponte…

Juiz de direito, guitarrista. E criador de um festival internacional de música

Carlos Motta
A vida de músico não é fácil no Brasil. Da mesma forma, não é para os fracos a tarefa de promover a música num ambiente dominado por uma indústria que odeia a qualidade. Mesmo assim há pessoas que se dedicam simultaneamente à vida artística e à extenuante missão de levar cultura ao público. 

Haja fôlego, haja coragem, haja vontade.

A situação se complica ainda mais quando essa pessoa exerce uma profissão que exige uma atenção constante, quase como um sacerdócio. 

Esse é o caso o doutor José Fernando Seifarth de Freitas, juiz da Vara da Família em Piracicaba, importante cidade do interior paulista, que também é Fernando Seifarth, violonista dos mais respeitados entre o pessoal que toca o jazz manouche, ou cigano, gênero que nasceu da genialidade do belga Django Reinhardt, lá nos anos 30 do século passado e rapidamente se espalhou pelo mundo todo. 

O juiz de direito e o músico, provando que muitas vezes querer é poder, se fundiram há alguns anos para criar um dos mais interessan…