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O Brasil, sem pão, sem razão


Em casa que não tem pão, todos brigam e ninguém tem razão.

A sabedoria popular, que produziu esse ditado, não deveria nunca ser subestimada, principalmente em momentos como este, em que o Brasil, cada vez com menos pães, assiste, perplexo, a um feroz embate entre aqueles que, supostamente, teriam de preservar pela sua legalidade e governabilidade, ou seja, os integrantes do Judiciário, Legislativo, Executivo, e desse novo Poder, o Ministério Público - sem contar com a onipresente imprensa.

Mas não.


Parece que uma monstruosa onda de insensatez se abateu em todas as autoridades, ao ponto de fazer com que elas, a cada gesto, a cada palavra, joguem mais gasolina numa fogueira que não para de crescer.

Quando um ministro do Supremo Tribunal Federal anula uma votação do Congresso, e recebe uma reprimenda pública de um seu colega  por isso - na verdade, um míssil verbal -,  é porque as coisas, se não saíram, estão saindo completamente do controle, e mesmo arriscando a tirar do eixo o fragilíssimo equilíbrio institucional do país neste pós-golpe de Estado.

Longe dos subterrâneos do poder, um outro universo a anos-luz do nosso dia a dia, o cidadão comum só toma contato com uma ínfima porcentagem do que se passa nos luxuosos gabinetes onde se reúnem os semideuses que decidem o nosso destino.

Porém, o pouco de informação que escapa pelos dutos do ar-condicionado dessas salas é o suficiente para que qualquer pessoa com dois neurônios conclua que, parafraseando o famoso dramaturgo inglês, há algo de podre no reino de Brasília.

O golpe para matar o Estado de bem-estar social que se procurava adotar no Brasil, e de quebra os partidos de esquerda que empunhavam essa bandeira e suas principais lideranças, promovendo a volta de uma política econômica e social que exclui 80% da população, começa a cobrar um pesadíssimo tributo a todos que dele participaram.

Não há nação que resista, por muito tempo, a tantas contradições, perfídias, corrupções e embates, em seus centros de poder.

A solução para o país retornar a um caminho virtuoso que o conduza a um mínimo ideal civilizatório é se chegar a um pacto que inclua todos os atores desta tragicomédia, tanto os golpistas quanto os que foram derrotados por eles.

E, é lógico, que dele faça parte o ex-presidente Lula, vítima de uma insana e feroz perseguição judicial, justamente ele que é, talvez, o único político capaz de dialogar com todas as forças que sustentam a sociedade brasileira. (Carlos Motta)

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