terça-feira, 25 de outubro de 2016

PT retrocedeu 20 anos na eleição municipal

O PT conquistou nas últimas eleições 256 prefeituras, 4,6% dos municípios brasileiros, e disputará o segundo turno em sete municípios (Vitória da Conquista – BA, Anápolis – GO, Juiz de Fora – MG, Recife - PE; Santa Maria – RS, Mauá – SP e Santo André - SP). Com esse resultado, o PT retorna a patamares anteriores à sua chegada ao governo federal, em número de cidades administradas, quando conquistou 7,8% dos municípios, em 2004, primeira eleição municipal após a chegada do partido ao Planalto.

Deve-se considerar, no entanto, que a participação do PT nas disputas eleitorais foi significativamente reduzida. Com apenas 971 candidatos a prefeito, 17,43% dos municípios brasileiros, disputou pouco mais de metade do número de cidades em que concorreu na eleição anterior (1.759). A participação do PT nessa eleição foi inferior ao que o partido pratica desde 1996, quando já disputava 1068 municípios – 17,8% do total de cidades brasileiras. Em termos de disputa, o PT retrocede mais de 20 anos.


A porcentagem de municípios eleitos em relação aos disputados foi de 26,36%. Tal número é superior ao de 2004, quando o partido obteve uma taxa de 22,54%, ao eleger 436 prefeituras das 1.934 disputadas.

Comparada à última eleição municipal, de 2012, quando o PT elegeu 639 prefeituras, mais de um terço (36,33%) das disputadas, a queda é de dez pontos percentuais.

Considerando a população a ser governada, a partir desta eleição, o PT passa a governar pouco mais do que seis milhões de brasileiros, algo em torno de 3% da população do país. Na eleição municipal anterior, o PT foi eleito para governar 38 milhões de pessoas, 20% da população do país. Tal queda é impactada principalmente pela perda de grandes cidades, como São Paulo, Guarulhos e municípios do ABC Paulista. Por essa variável, o PT retorna a patamares inferiores a 1996 (começo da série histórica da FPA), quando o PT governava 5% da população, 7,8 milhões de brasileiros.

O PT obteve nesta última eleição 6.822.967 votos, 4,7% do total, cerca de um terço do que obtevera na eleição anterior – 17.970.643. Também por essa variável retorna a patamares inferiores a 1996, quando obteve 7.908.639 de votos, 8% do total. O fato é que o PT disputou poucos municípios, o que também contribuiu para esse resultado.

Análise da segmentação da votação do PT

O PT governará mais municípios no Nordeste do Brasil, onde elegeu 114 prefeituras, 38% das 297 que disputou. O desempenho do partido foi bastante expressivo nos municípios em que disputou nos estados de Piauí, Maranhão, Bahia, Ceará e Pernambuco. Nessa região, concorreu em um número considerável de municípios a mais que na eleição passada e mais do que dobrou o número de cidades a serem administrados pelo PT na próxima gestão (114, perante os 54 anteriores).

A segunda região onde o PT mais estará presente é a Sul, com 68 prefeituras, 29% das 236 disputadas, e a Norte, em terceiro lugar, com 20%, dezoito municípios. O Sudeste e o Centro-Oeste são as regiões em que o PT terá menor participação.

Além do número de cidades, o encolhimento do PT também se deve ao porte dos municípios em que se elegeu. A única capital eleita foi Rio Branco, no Acre e, além dela, no segmento das cidades com mais de 200 mil habitantes, elegeu apenas mais duas: São Leopoldo (RS) e Araraquara (SP).

Nas 153 cidades com população entre cinquenta e duzentos mil que o PT disputou, venceu em 22 e governará 45 com porte entre 10 e 20 mil habitantes. A grande maioria das cidades em que o PT se elegeu (186 cidades) e também aquelas onde mais disputou (522) possuem população inferior a 20 mil habitantes.

Inúmeros argumentos podem ser levantados para tentar explicar a derrota do PT nessas eleições: a perda do governo federal; o golpe; a escolha tática do partido de redução das candidaturas; a redução no número de quadros do partido que dele se afastaram temendo o anti-petismo. Além disso, o novo modelo de campanha eleitoral, sem financiamento público, com recursos restritos a doações de pessoas físicas - o que inviabiliza candidaturas mais populares - e duração mais curta, com menor tempo de exposição dos candidatos, reduz o debate de projetos locais e despolitiza o processo. Também impede o esclarecimento das questões nacionais, incessantemente colocadas pela oposição e pela mídia no constante massacre ao PT, reforçada pelo que chamamos operação “Boca de Urna”, desencadeada pela PF e STF. Às vésperas da eleição, foram efetuadas as prisões dos ex-ministros Guido Mantega e Palocci, além do espetáculo armado pelo procurador da República Deltan Dallagnol para denunciar Lula como chefe da corrupção, o que levou o foco das eleições municipais para questões nacionais com o único objetivo de derrotar o PT nas urnas.

O resultado das urnas pode ser também atribuído aos maus resultados da economia, insistentemente atribuídos ao “PT que deixou o país nessa crise”, sem levar em consideração que essa é uma crise econômica internacional, cujos reflexos se aprofundaram no Brasil no último ano, pois o governo golpista aprofundou a recessão e o desemprego.

Ao que tudo indica, o eleitor quis de alguma maneira punir o PT nas urnas, por meio de um voto antipetista, sem a consolidação de um novo campo de esquerda. O mais preocupante é que o partido perdeu para as forças conservadoras ou para a desesperança, a desilusão com a política, haja vista a alta taxa de abstenção, brancos e nulos.

Justificando a primeira hipótese, de que a perda é para o campo conservador de direita, observa-se que os partidos que mais cresceram foram o PRB (+48%), PSD (+32%) e PSDB (+25%). Já os partidos de esquerda perderam votos puxados, sem dúvida, pelo PT, que perdeu o maior número de votos (-69%), o PSOL (-12%) e o PCdoB (-6%).

Observando-se o ranking dos partidos mais votados, o PSDB lidera nas eleições municipais, com 12% do total dos votos, seguido pelo PMDB, com 10%. O PSB e PSD empatam, ambos com 6%, sendo que o primeiro se retrai e o segundo cresce. O PT fica no ranking como quinto partido mais votado, com 5%, pouco à frente do PDT e PP, ambos com 4%.

Assim, colado ao discurso anti PT, estigmatizado como o responsável por todos os males do Brasil, e ao discurso apolítico e apartidário, para quem a política é desnecessária, são todos iguais e não se pode confiar, avança a direita, com candidaturas apoiadas nesse argumento – do novo, não político, administrador.

Essa é uma derrota, no entanto, que foi imposta ao longo do tempo. Uma derrota para o Partido dos Trabalhadores, em especial, mas também para as esquerdas que não conseguiram capturar o voto desiludido com o PT. A ofensiva começou já em outubro de 2014, com a eleição do segundo mandato de Dilma, não aceita pela direita, que iniciou o processo do golpe que vem se aprofundando.

A direita avança nas urnas e a passos largos na implementação das suas políticas, com a PEC 241 em plena votação sem o devido debate com a sociedade, que não percebe o está perdendo, com a venda e entrega do pré-sal e consequente desnacionalização da Petrobras, além da retirada de recursos da saúde e educação, a reforma do ensino, da Previdência, da legislação trabalhista e inclusive a reforma política.

A formação das alianças para a disputa eleitoral é outro aspecto que, ao mesmo tempo que viabilizou a participação do PT na disputa, também o fragilizou perante seu eleitorado.

Além dos 256 prefeitos eleitos no primeiro turno das eleições de 2016, o Partido dos Trabalhadores estará presente em diversas outras prefeituras, seja na condição de vice eleito ou por estar na coligação que venceu a disputa municipal das mais diversas cidades do país. Considerando apenas os vices petistas de prefeitos eleitos de outros partidos, o PT terá 220 vice-prefeitos por todo país, sendo 23 na Região Norte, noventa no Nordeste, 33 no Sudeste, dez no Centro-Oeste e 64 no Sul. No Brasil, o partido com mais vices petistas é o PMDB, com um total de 51, o que se repete também em todas as regiões: No Sul, por exemplo, o maior número de vices petistas, dezoito, está em prefeituras peemedebistas.

O Partido dos Trabalhadores também deve estar presente em prefeituras nas quais não foi líder da chapa nem vice e somente partido da coligação: 1113 prefeitos foram eleitos com apoio do PT na coligação por todo o país, sendo 93 no Norte, 371 no Nordeste, 305 no Sudeste, 88 no Centro Oeste e 256 no Sul. O partido mais apoiado em nível nacional, sem considerar as candidaturas que tiveram o PT como vice, foi o PMDB, em 250 prefeituras eleitas. No nível regional, tal apoio ao PMDB se repetiu em todas as regiões, excetuando a região Nordeste, na qual as candidaturas vitoriosas mais apoiadas com a presença do PT na coligação foi o PSD.

O PT deve estar presente, considerados apenas os resultados do primeiro turno, e se as coligações eleitas se configurarem em apoios e participação nas administrações municipais, num total de 1589 prefeituras por todo o Brasil, sendo 134 no Norte, 575 no Nordeste, 389 no Sudeste, 103 no Centro Oeste e 388 no Sul. Considerando apenas prefeituras conquistadas por candidatos não petistas, o partido em cujas administrações municipais mais faremos parte, no Brasil, no Norte, no Sudeste, Centro Oeste e Sul, é o PMDB, com um total de 301, 39, 91, 25 e 90, respectivamente. A exceção fica no Nordeste, região na qual o maior número de prefeituras de outro partido nas quais o PT deverá estar presente são em 95 conquistadas pelo Partido Social Democrata, o PSD.

Nas prefeituras nas quais o PT conseguiu ser eleito, outros partidos também deverão se fazer presentes por terem composto as coligações eleitas. O principal partido apoiador do PT em nível nacional foi o PCdoB, que esteve coligado em 95 candidaturas petistas eleitas no primeiro turno. Nas regiões Norte e Nordeste, o maior apoio nas prefeituras conquistadas pelo PT também foi do PCdoB, em 10 e 51, respectivamente. No Sudeste, no Centro-Oeste e no Sul, os principais apoios foram do PSD, PMDB e PDT, com números de 22, 3 e 28, respectivamente. Se considerarmos apenas os partidos de esquerda, o maior apoio no Sudeste se deu pelo PCdoB, em 18 prefeituras petistas eleitas, enquanto no Centro-Oeste foi o PDT, em apenas uma prefeitura.

O que os resultados eleitorais indicam para todo o campo de esquerda, em especial para o PT, é que precisamos repactuar com a esquerda para além dos partidos, com os movimentos sociais e sindicais, retomando o diálogo com a classe trabalhadora que está aderindo ao discurso da direita, manipulada pela mídia, sem perceber que será a principal prejudicada e já está perdendo direitos duramente adquiridos.

A experiência de construção do PT, especialmente nos anos que governou, precisa ser analisada e debatida.

O partido está sendo afastado do processo político do país tanto por meio ilegítimo, imposto pelo golpe, que inclui a iniciativa política, midiática e judiciária de tentar a interdição do partido, incluindo a possível prisão de suas principais lideranças, quanto por erros cometidos, como escolhas políticas que se mostraram equivocadas, tudo isso apropriado e explorado pelo monopólio da comunicação para atacar o PT de forma brutal. (Boletim de Análise de Conjuntura Política e Opinião Pública 8/Fundação Perseu Abramo)

Um comentário:

  1. Francamente acho que o PT não errou. Apostou como todos nós na convivência civilizada com a casa grande. Uma quimera que se desmancha com o golpe. A esquerda encontra-se encurralada pelos donos do Brasil, e seus capangas. Não somos um País civilizado, se é que somos um País. Como sobreviver é o desafio, ainda mais, com o Brasil indo ladeira a baixo. Teremos tempos sombrios pela frente.

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