Pular para o conteúdo principal

O melhor está no fim



Nada é mais divertido, já que o mundo está de ponta-cabeça, do que ler o que os especialistas acham de tudo isso.

Há opiniões para quase todos os gostos.

Ficam faltando, porém, aquelas realmente originais, que poderiam levar as pessoas a acreditar que a evolução humana não é simples acaso.

A maioria dos palpiteiros exibe seus conhecimentos com uma terminologia técnica pretensiosa, como se ela fosse suficiente para respaldar as obviedades do discurso. É o caso clássico do que popularmente se chama de “dourar a pílula”.

A técnica jornalística conhecida como pirâmide invertida, que aqui chegou importada dos Estados Unidos, manda o redator colocar no início da notícia tudo o que é realmente importante. Parte do pressuposto de que o leitor é preguiçoso, ou que o fato narrado não merece mesmo muita atenção, ou que o redator é mesmo ruim.

Outra técnica é desenvolver a história aos poucos. É mais difícil, pois exige um mínimo de talento de quem escreve.

Lembro de um veterano jornalista do Estadão que, por medo de ver suas matérias mutiladas pelos fechadores, implorava:

– Se for para cortar, que corte no começo. O melhor está no fim.

É isso o que está faltando para esses comentaristas desta crise: chegar ao fim da história.

(Carlos Motta, publicado originalmente em 14/11/2008 no blog "Crônicas do Motta")

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Pátria deseducadora

Juiz de direito, guitarrista. E criador de um festival internacional de música

Carlos Motta
A vida de músico não é fácil no Brasil. Da mesma forma, não é para os fracos a tarefa de promover a música num ambiente dominado por uma indústria que odeia a qualidade. Mesmo assim há pessoas que se dedicam simultaneamente à vida artística e à extenuante missão de levar cultura ao público. 

Haja fôlego, haja coragem, haja vontade.

A situação se complica ainda mais quando essa pessoa exerce uma profissão que exige uma atenção constante, quase como um sacerdócio. 

Esse é o caso o doutor José Fernando Seifarth de Freitas, juiz da Vara da Família em Piracicaba, importante cidade do interior paulista, que também é Fernando Seifarth, violonista dos mais respeitados entre o pessoal que toca o jazz manouche, ou cigano, gênero que nasceu da genialidade do belga Django Reinhardt, lá nos anos 30 do século passado e rapidamente se espalhou pelo mundo todo. 

O juiz de direito e o músico, provando que muitas vezes querer é poder, se fundiram há alguns anos para criar um dos mais interessan…

O profeta Chico Buarque

Carlos Motta

Que Chico Buarque é um dos poucos gênios da raça, não há a menor dúvida.

Tudo o que ele fez e faz, faz bem.

Isso é fato provado e comprovado.

O que poucos sabem, porém, é que o músico, cantor, letrista, poeta, romancista, teatrólogo etc e tal tem poderes proféticos, como se fosse um Nostradamus tropical, capaz de, 30 anos atrás, prever o que seria o Brasil de hoje, o malfadado Brasil Novo nascido do assalto que a mais cruel, torpe e voraz quadrilha já empreendeu na história da humanidade.

"Vai Passar", na pegada arrebatadora de um samba-enredo, diz tudo sobre este país desafortunado.

Além de prever o seu futuro, explicitado em poucos e ótimos versos:

"Num tempo
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações"

Quem sabe, sabe.

Chico Buarque sabe tudo e um pouco mais.

Aí estão, aos olhos de todos, as mais tenebrosas transações que possa…