sábado, 29 de outubro de 2016

Direita também avança no Chile

No último domingo, ocorreram eleições municipais no Chile. Os resultados mostram diminuição no número de votos de quase todos os partidos políticos, crescimento da abstenção e vitória da direita nas prefeituras mais importantes do país.

A taxa de abstenção cresceu 5% em comparação com as municipais de 2012: 65% do eleitorado não votou neste que foi o segundo pleito desde a reforma que retirou a obrigatoriedade do voto.

A coalizão Chile Vamos – oposição ao governo Bachelet, formada pelos partidos Renovação Nacional (RN) e União Democrata Independente (UDI) – foi a força política mais votada, com 38,45% dos votos no total nacional e 143 prefeitos eleitos (17 a mais, em comparação a 2012).

A Nova Maioria - coalizão da presidenta Bachelet integrada pelos partidos Socialista (PS), Democrata Cristão (PDC), Comunista (PC), Radical Social Democrata (PRSD), Partido pela Democracia (PPD) e pelo Movimento ao Socialismo (MAS região) – obteve 37,05% dos votos nacionalmente e elegeu 141 prefeitos, 27 a menos em comparação com 2012.


Ainda em âmbito nacional, 17,37% dos votos foram para candidaturas independentes e 7,13% para outros dezoito partidos que não integram as duas principais coalizões, entre os quais o Partido Progressista, do ex-deputado do PS Marco-Enriquez Ominami, que elegeu um prefeito.




O resultado tem sido interpretado como uma derrota do governo Bachelet, cuja taxa de popularidade atualmente gira em torno de 15%. Embora os percentuais de voto e os números de prefeitos eleitos pela Nova Maioria e pelo Chile Vamos sejam próximos, a direita venceu nas principais prefeituras do país. Vale lembrar que, na divisão político-administrativa do Chile, as prefeituras não correspondem exatamente ao território das cidades. A região metropolitana de Santiago é formada por 52 comunas, das quais 32 estão na província de Santiago e o restante em outras províncias. O que se compreende geograficamente como a cidade de Santiago está dividido em várias comunas (como Santiago-Centro, Providência, entre outras), com seus respectivos prefeitos.

Em Maipú, comuna mais populosa do país e atualmente governada pela Democracia Cristã, a candidata opositora Catherine Barriga saiu vitoriosa. Em Santiago-centro, a atual Prefeita Carolina Tohá (PPD) - ex-ministra do primeiro mandato de Bachelet - perdeu por cerca de 10% para o candidato da Renovação Nacional, Felipe Alessandri, nome pouco conhecido nacionalmente. Em Providencia, a atual prefeita Josefa Errázuriz (candidatura independente, mas com apoio da Nova Maioria) foi derrotada por Evelyn Matthei (UDI), ex-candidata à presidência em 2013. A direita ganhou ainda em comunas com perfil mais popular, como La Florida e Puente Alto, ambas bastante expressivas em número de eleitores e localizadas nos arredores de Santiago.

Na contramão, destaca-se a eleição de Jorge Sharp, em Valparaíso, um ex-dirigente do movimento estudantil de 31 anos, que se apresentou como candidato independente, a partir de uma plataforma de esquerda autonomista (mesmo setor político de Gabriel Boric, um dos líderes do movimento estudantil que se elegeu parlamentar em 2013). Contrariando as pesquisas que previam uma disputa acirrada entre as duas coalizões, Sharp venceu com 46,3% dos votos.

A comparação com 2012 mostra que, em graus variados, a direita venceu no número de prefeitos eleitos, no percentual de votos e no percentual da população que estará sob seu governo nas administrações locais.




As eleições municipais também têm sido interpretadas como um termômetro para as presidenciais que ocorrerão no final de 2017. Por um lado, o ex-presidente Sebastián Piñera, que até o momento aparece como o principal nome da oposição para 2017, sai fortalecido, na medida em que elegeu seus candidatos em prefeituras expressivas, como Santiago e Providência. Os resultados não são bons para as intenções do ex-presidente Ricardo Lagos voltar ao La Moneda e dificultam o desafio de manter a unidade da Nova Maioria para 2017. Além do cenário geral de perda de votos e prefeituras da coalizão, Lagos partilha particularmente a derrota de sua sucessora política, a prefeita de Santiago Carolina Tohá. Por outro lado, as sinalizações do pleito municipal também encontram limites, na medida em que a diferença de votos em âmbito nacional foi mínima e, fora dos grandes centros, as disputas locais são bastante personalizadas e pouco vinculadas aos partidos. (Terra Budini, internacionalista/Fundação Perseu Abramo)

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