terça-feira, 4 de outubro de 2016

Acredite se quiser!



Comecei a trabalhar em jornal aos 16 anos de idade, quando ainda cursava o antigo Colegial do Instituto de Educação Experimental Jundiaí. Meu primeiro emprego foi no Jornal da Cidade. Produzia uma página de variedades nas férias do titular, o saudoso e incomparável Ademir Fernandes.

Acumulei com a revisão noturna. Era uma rotina estafante: saía do Instituto por volta das 11 da noite, ia ao jornal, ficava lá até pelas 5 da madrugada, dormia até a hora do almoço, corria para o jornal, voltava para casa no fim da tarde e, por fim, retornava para as aulas no Instituto.

Essa correria durou apenas três meses: saí do jornal quando o pedido de equiparação salarial com o revisor diurno foi recusado.

Logo em seguida fui chamado para trabalhar no Diário de Jundiaí, o irmão mais pobre do Jornal de Jundiaí, que ficava com as suas sobras: fotografias não usadas, clichês (a chapa de zinco com a imagem fotográfica invertida com a qual se imprimiam as imagens) velhos, notícias igualmente velhas...

Minha passagem no Diário de Jundiaí também foi curta – percebi que o jornal não duraria muito mais tempo e tratei de ir trabalhar como redator do diretor de publicidade do Jornal da Cidade, até ser convidado para ser repórter do Jornal de Jundiaí, o JJ.

E foi no JJ, onde fiquei vários anos, que descobri algumas das verdades da profissão, que guardo até hoje, já aposentado: não existe jornalismo imparcial, não existe verdade factual, não existe liberdade de imprensa – jornais são tão inverossímeis quanto Papai Noel, anjos, duendes, fadas ou deuses.

As ordens do dono do JJ para não dar essa ou aquela notícia que pudesse comprometer a imagem de anunciantes foram as mesmas que ouvi ao longo do tempo, no Jornal de Domingo, de Campinas, no Estadão, no Jornal da Tarde ou, mais recentemente, no Valor Econômico, publicações em que também trabalhei.

Em todas as redações, à exceção do Jundiaí Hoje, uma aventura que durou três anos e foi a mais excitante experiência que tive em jornalismo, as mesmas pressões, as mesmas “O.P.” – ordens do patrão...

E também a repetição das pautas encomendadas pela diretoria, das matérias que caíam misteriosamente, da mudança de enfoque.

O mesmo clima de insegurança e medo.

A autocensura, muito pior que a censura.

Os chefetes sem caráter.

Os puxa-sacos.

Foram mais de 40 anos em redações.

Alguma coisa aprendi.

Hoje, por exemplo, não leio mais jornal. Passo os olhos pelas notícias nos portais da internet. Vou para os meus blogs favoritos. E constato que mais pessoas fazem como eu. Mas sei que quem ainda lê jornais e revistas, miseravelmente acredita naquilo que está ali impresso.

Tenho pena desse sujeito. Porque ele não sabe que aquilo que foi publicado é apenas a visão distorcida do que seria a seleção dos fatos mais relevantes do dia anterior.

E além de tudo, muito mal escrita. 

(Carlos Motta/texto publicado originalmente em 6/11/2014 no blog "Crônicas do Motta" e que faz parte do e-book "País Calmoso e Hereditário")

2 comentários:

  1. Fico imaginando que , se por azar, um desses donos de jornal der entrada em um hospital, e encontrar um médico com o mesmo carater dele. Danou-se.

    ResponderExcluir