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Os parafusos soltos do diretor de redação



A reunião dos editores para apresentação das notícias para a primeira página do Estadão corria normal, na modorrice de sempre, até que o diretor de redação, no cargo havia pouco tempo, entrou na sala, nem se sentou, e foi dizendo:

- Acabei de fazer uma loucura. Vou botar uma mulher para editar o esporte. 

Falou como se isso fosse uma coisa extraordinária - uma mulher que entende de esportes, oh!

O interessante é que em nenhum instante acentuou a capacidade profissional da contratada, nem a sua experiência na função de editora, nem o que pretendia mudar, se é que pretendia mudar alguma coisa, no caderno de esportes.

Só avisou que uma mulher iria editar a seção esportiva do jornal.

Depois desse anúncio bombástico, saiu da sala, e ficamos todos nos entreolhando, sem dizer nada.

Foi aí que eu suspeitei que aquele sujeito não batia bem da cachola.

Meses depois, fui chamado à sua sala.

Tinha enviado a ele uma mensagem dizendo que, interino como editor do caderno de economia, pretendia voltar à minha função de editor-assistente tão logo o titular o informasse que estava deixando o jornal para trabalhar no recém-lançado "Valor Econômico" - algo que já sabíamos e ele provavelmente, não.

Me recebeu muito bem. 

Quis saber há quanto tempo estava no Estadão, o que já tinha feito, quanto ganhava, e finalmente me ofereceu um aumento de 50% para que continuasse no cargo de editor. 

Fiquei surpreso com a oferta - o Estadão nunca havia sido tão generoso comigo.

Mas fiquei mais surpreso ainda com o que ele disse a seguir:

- Mandei construir esse banheiro aqui na minha sala e botar esse sofá. Às vezes durmo e tomo banho aqui. Sabe, desde pequeno eu sabia que um dia seria diretor de redação do Estadão...

A suspeita de que ele não era certo da cabeça se confirmou naquele momento.

Meses depois, quando já havia me demitido de lá por não aguentar mais ter um maluco como chefe e por ele não ter cumprido a promessa de aumentar meu salário, recebi um telefonema de um amigo informando que o sujeito havia assassinado a sua ex-namorada, que ele havia levado para trabalhar no jornal e, na ocasião, já era a editora do caderno de economia.

Fiquei triste e chocado por vários motivos óbvios, mas também pelo fato de que aquela tragédia poderia ter sido evitada, pois não só muita gente da redação havia notado a deterioração mental do tipo, como a própria direção do jornal tinha sido alertada sobre seu comportamento estranho e revelador de que ele estava com vários parafusos soltos.

Fora isso, é incrível como a direção de um jornal centenário, cuja redação foi comandada por profissionais brilhantes, não tenha percebido que ela estava sob a chefia de um completo incompetente, um desastre como jornalista, e um ser humano execrável. (Carlos Motta)

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