quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Os almoços no Estadão e as confidências dos boleiros


Logo que soubemos que o Caderno de Esportes tinha uma pequena verba para esse fim, resolvemos aproveitá-la e começamos a convidar jogadores, técnicos e cartolas do nosso rico e maravilhoso futebol para almoços numa sala que a diretoria do Estadão reservava para essas ocasiões.

Não pretendíamos entrevistar os convidados, mas sim conversar informalmente com eles, em "off", como se diz no meio jornalístico, para extrair alguma pauta do bate-papo e mesmo para ficarmos mais por dentro dos bastidores do futebol.

E fomos à luta - ou melhor, ao filé com legumes que invariavelmente o cozinheiro preparava.

Os almoços renderam, além de muitas boas histórias, outras reveladoras informações sobre o mundo da bola - um universo além da imaginação...

Aí vão algumas delas.


O jardim com nota fiscal


O polido presidente do São Paulo estava empolgado em contar como as administrações do clube primavam pelo profissionalismo, de maneira tão diferente dos chamados "coirmãos". Sua fala foi interrompida por um dos mais experientes repórteres da equipe do Caderno de Esportes:

- Mas, presidente, e aquela história de o clube ter gasto uma fortuna nos jardins do Morumbi?

Ele deu um sorrisinho maroto antes de se explicar:

- Ora, o ... [diretor responsável pela área, que anos depois se tornou presidente do clube] apresentou as notas fiscais do serviço...


Não se salva um


Ele era o treinador do momento. O Corinthians estava jogando o fino. Experiente, vivido, falava com autoridade. Quando a conversa se encaminhou para o perigoso terreno da corrupção, não se fez de rogado:

- Olha, não existe um só técnico no Brasil que não receba comissão por fora na venda ou contratação de jogador. Todos recebem, todos.

A gente ficou meio sem jeito de perguntar se ele fazia parte desse todo.


Dribles e drogas


Na época ele era diretor de futebol do Corinthians. Hoje está meio afastado do clube. Foi um papo ótimo, de alto nível, com um sujeito muito acima da média dos cartolas brasileiros. Também pode-se dizer que sua língua era um tanto quanto solta, pois o que nos revelou, no mais estrito "off the records", foi estarrecedor.

Perguntamos a razão pela qual um dos volantes do time, que havia sido contratado de um clube do interior e estava jogando o fino da bola, de repente havia virado um perna de pau que só ficava no banco.

- Cachaça - respondeu de pronto. Se deslumbrou com a vida na capital, muitas mulheres, badalação, baladas, bebidas e coisa e tal. 

Perguntamos se o clube não poderia fazer nada para impedir que isso ocorresse com seus jogadores.

- Fazer o quê? Eles são adultos. O que o gente podia fazer, fizemos, que foi botá-lo na reserva.

Papo vai, papo vem, perguntamos sobre outro atleta, um zagueiro que era titular e de repente foi "vendido " para outro clube.

- Ah, o problema desse foi cocaína.

Ficamos perplexos. E muito mais depois que ele completou a frase:

- Olha, vocês querem saber? Setenta por centos dos jogadores têm problemas de alcoolismo. Sabem o ... [atacante goleador, que passou por vários clubes brasileiros]? Vocês da imprensa iam no treino da manhã, ele não estava lá, aí queriam saber o que havia acontecido e a gente falava que ele estava na sala de ginástica, fazendo exercícios, mas na verdade ele tinha aparecido no treino ainda bêbado, sem dormir, vomitando, e a gente tinha de esconder isso de vocês. E vocês acreditavam...


Um time de pernas de pau


Na época ele ainda não era o técnico badalado de hoje. Mas trabalhava num grande clube, o São Paulo, que havia contratado vários jogadores. Perguntamos o que ele achava dessas contratações:

- Esse é lento demais. 

E o fulano?

- Esse é jogador do presidente. Grosso. O pessoal não o quer nem na roda de "bobinho".

E por aí foi, não perdoando nenhum.

Claro que não ganhou nada no São Paulo. E alguns dos que considerava pernas de pau prestaram vários anos de bons serviços ao clube.

(Carlos Motta)

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