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O jornalismo econômico, uma ficção produzida pelos bancos


O jornalismo econômico ganhou destaque e, de certa forma, se profissionalizou no fim dos anos 80 do século passado. 

O Estadão, por exemplo, até então publicava as notícias econômicas depois da seção de turfe.

A claudicante situação da economia do país, a insegurança da classe média em relação ao que fazer com as suas ralas economias, as patéticas e frustradas tentativas dos governos em achar uma situação mágica que resolvesse de vez os problemas, editando inúmeros "pacotes", tudo isso levou os jornalões a engordar suas editorias econômicas, lançar produtos e contratar muitos profissionais que se especializaram na área.

Naquela época, as fontes de informação ainda eram variadas. 

Os empresários, por exemplo, exerciam um forte lobby: as reuniões de conjuntura da Fiesp, às segundas-feiras, mereciam cobertura obrigatória.

Com o passar dos anos, porém, o setor financeiro se expandiu de forma avassaladora e uma de suas primeiras providências para se consolidar como o mais importante e influente do país foi conquistar a imprensa para as suas demandas.

Bancos, corretoras, consultorias, economistas autônomos, todos eles passaram a difundir, com extrema competência, informações sobre as virtudes do "mercado", a importância da bolsa de valores, a maravilha dos diversos produtos bancários, e, no lado oposto, sobre a extemporaneidade das teses com viés social-democrata, e, mais recentemente, sobre como as medidas dos governos Lula e Dilma eram prejudiciais ao país.

Nos anos em que trabalhei no "Valor Econômico" pude observar mais atentamente a força e a influência do setor financeiro na linha editorial do jornal.

Bancos, corretoras e consultorias ofereciam, com uma regularidade impressionantes, sugestões de pauta e até mesmo "estudos" para publicação exclusiva, repercussões imediatas de medidas governamentais, além de ter, à disposição dos repórteres, 24 horas por dia, sete dias por semana, "especialistas" para comentar qualquer assunto da área econômica.

Ficou extremamente fácil trabalhar na área: o repórter recebia, via e-mail, um "paper" sobre um tema qualquer, cheio de números e gráficos para dar a ele um ar científico, com exclusividade. Uma conversa de alguns minutos com o autor do "estudo" completava a matéria.

A influência do setor financeiro no "Valor" era tão grande que, certa ocasião, numa reunião de pauta, a diretora de redação pediu que também se ouvisse, na cobertura em geral, empresários e membros da Academia.

Não foram poucas vezes em que, numa mesma página do jornal, o mesmo "especialista", ligado ao setor financeiro, aparecesse com seus achismos em duas ou três matérias sobre assuntos diferentes.

O lançamento do "Valor Pro", serviço de informações online para o mercado financeiro, há alguns anos, marcou definitivamente a entrega do noticiário do jornal aos interesses dos banqueiros.

O "Valor", porém, não foi o único jornal a cair nos braços do setor não produtivo nacional. 

Todos os outros, ao menos em sua seção econômica, estão, indisfarçavelmente, a favor dos banqueiros, defendendo compulsivamente medidas para aumentar ainda mais seus gordíssimos lucros e ampliar sua arrasadora influência na vida política e social da nação.

(Carlos Motta)

Comentários

  1. É o Brasil, de potência mundial a covil de bandidos. Onde estão nossos guardiães da pátria? Protegendo tucanos ladrões e seus próprios salários?

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  2. Numa boa, se passar um bisturi nas contas de certos editores, vão encontrar coisas bem bisonhas, são coisas deslavadas a céu aberto em reuniões de 'pautas', uma vergonha, diria aquele misogino da Band

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