quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O Dudu, as 14 horas diárias de trabalho, e a morte


Aquele foi o dia mais triste dos meus 18 anos de Estadão.

Foi no meio da tarde, por volta das 3 horas. 

O Abominável caminhou até nós, para nosso espanto, já que ele não era dado a essas liberalidades - quando queria falar com alguém, mandava a secretária chamá-lo, imperialmente.

Parou a uns dois metros das nossas mesas e, com uma expressão vazia, com aquela sua voz característica, lenta e pastosa, disse simplesmente:

- Voltei agora da enfermaria. O Dudu [chefe da diagramação] está lá, morto.

Atônitos, pedimos mais informações - que ele não soube dar.

Larguei tudo e desci à enfermaria.

E vi o corpo do Dudu na maca, incompreensívelmente rígido.

Tudo o que ocorreu depois se passou como se minha cabeça estivesse cheia de uma névoa entorpecedora.

Lembro que, lá no saguão do térreo, onde ficam os elevadores, me encontrei com a mãe do Dudu, que queria, a todo custo, ver o corpo do filho. 

Acho que, com a ajuda de outras pessoas, a acalmei, mas não tenho certeza se ela parou de chorar, se ela entrou no elevador, se foi embora ou não.

Mais tarde, quando o choque da notícia não era tão intenso, reconstituímos as últimas horas de vida do Dudu.

Ele havia saído do jornal de madrugada, depois de trabalhar umas 14 horas, rotina a que se submetia nos últimos meses.

Voltou ao jornal por volta da 1 da tarde, de carro, levado pela sua mulher. Disse a ela que não estava se sentindo bem, que iria passar na enfermaria. Não usou o elevador, foi pela escada, dois lances apenas, se bem me recordo.

Na enfermaria, se queixou do mal estar, deram-lhe algum remédio e o mandaram repousar - provavelmente na mesma maca em que vi o seu corpo sem vida.

O Dudu era jovem, bem humorado, pau para toda a obra, um ótimo diagramador, boa gente mesmo.

Não muito tempo antes de seu coração explodir, outro diagramador, o Chiquinho, que trabalhava no Jornal da Tarde, a poucos metros do Estadão, também havia morrido, na mesma enfermaria, vítima do mesmo mal, provavelmente na mesma maca.

O Dudu e o Chiquinho eram cunhados. (Carlos Motta)

2 comentários:

  1. Fiquei curiosa. Por que contou essa história? É o aniversário da morte de algum dos dois?

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    1. Contei essa história, como tenho contado outras do tempo em que trabalhei na "grande imprensa", porque ela pode ajudar as pessoas de fora da profissão a entender como se faz um jornal e como é o material humano que produz as notícias. São apenas histórias, enfim, que talvez ajudem a despertar em nós sentimentos que lembrem a nossa humanidade - algo a se valorizar neste triste momento que vivemos.

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