Pular para o conteúdo principal

O Dudu, as 14 horas diárias de trabalho, e a morte


Aquele foi o dia mais triste dos meus 18 anos de Estadão.

Foi no meio da tarde, por volta das 3 horas. 

O Abominável caminhou até nós, para nosso espanto, já que ele não era dado a essas liberalidades - quando queria falar com alguém, mandava a secretária chamá-lo, imperialmente.

Parou a uns dois metros das nossas mesas e, com uma expressão vazia, com aquela sua voz característica, lenta e pastosa, disse simplesmente:

- Voltei agora da enfermaria. O Dudu [chefe da diagramação] está lá, morto.

Atônitos, pedimos mais informações - que ele não soube dar.

Larguei tudo e desci à enfermaria.

E vi o corpo do Dudu na maca, incompreensívelmente rígido.

Tudo o que ocorreu depois se passou como se minha cabeça estivesse cheia de uma névoa entorpecedora.

Lembro que, lá no saguão do térreo, onde ficam os elevadores, me encontrei com a mãe do Dudu, que queria, a todo custo, ver o corpo do filho. 

Acho que, com a ajuda de outras pessoas, a acalmei, mas não tenho certeza se ela parou de chorar, se ela entrou no elevador, se foi embora ou não.

Mais tarde, quando o choque da notícia não era tão intenso, reconstituímos as últimas horas de vida do Dudu.

Ele havia saído do jornal de madrugada, depois de trabalhar umas 14 horas, rotina a que se submetia nos últimos meses.

Voltou ao jornal por volta da 1 da tarde, de carro, levado pela sua mulher. Disse a ela que não estava se sentindo bem, que iria passar na enfermaria. Não usou o elevador, foi pela escada, dois lances apenas, se bem me recordo.

Na enfermaria, se queixou do mal estar, deram-lhe algum remédio e o mandaram repousar - provavelmente na mesma maca em que vi o seu corpo sem vida.

O Dudu era jovem, bem humorado, pau para toda a obra, um ótimo diagramador, boa gente mesmo.

Não muito tempo antes de seu coração explodir, outro diagramador, o Chiquinho, que trabalhava no Jornal da Tarde, a poucos metros do Estadão, também havia morrido, na mesma enfermaria, vítima do mesmo mal, provavelmente na mesma maca.

O Dudu e o Chiquinho eram cunhados. (Carlos Motta)

Comentários

  1. Fiquei curiosa. Por que contou essa história? É o aniversário da morte de algum dos dois?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Contei essa história, como tenho contado outras do tempo em que trabalhei na "grande imprensa", porque ela pode ajudar as pessoas de fora da profissão a entender como se faz um jornal e como é o material humano que produz as notícias. São apenas histórias, enfim, que talvez ajudem a despertar em nós sentimentos que lembrem a nossa humanidade - algo a se valorizar neste triste momento que vivemos.

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Pátria deseducadora

A arte popular brasileira ganha um livro

"Eu me ensinei: narrativas da criatividade popular brasileira" é ao mesmo tempo um livro de arte e um compêndio raro sobre a obra de 78 artistas autodidatas de todo o país. “Eu me ensinei sozinha”, frase cunhada por Izabel Mendes da Cunha, conhecida como Dona Izabel, representa, com clareza, a síntese da categoria que aglutina os artistas do livro. A obra será lançada no dia 7 de dezembro de 2017, às 18h30, na Livraria Martins Fontes – Avenida Paulista, 509, em São Paulo. 
Autoria e projeto editorial de Edna Matosinho de Pontes, a publicação bilíngue (português e inglês), 464 páginas, editada pela Via Impressa Edições de Arte, além de registrar a vida e obra dos artistas relacionados, traz um ensaio aprofundado sobre a questão da arte popular, de Ricardo Gomes de Lima, e texto de apresentação assinado por Fabio Magalhães. 

Com seu arsenal de conhecimento sobre essa expressão artística nacional, acumulado ao longo de 30 anos como estudiosa, colecionadora e galerista, Edna Ponte…

Juiz de direito, guitarrista. E criador de um festival internacional de música

Carlos Motta
A vida de músico não é fácil no Brasil. Da mesma forma, não é para os fracos a tarefa de promover a música num ambiente dominado por uma indústria que odeia a qualidade. Mesmo assim há pessoas que se dedicam simultaneamente à vida artística e à extenuante missão de levar cultura ao público. 

Haja fôlego, haja coragem, haja vontade.

A situação se complica ainda mais quando essa pessoa exerce uma profissão que exige uma atenção constante, quase como um sacerdócio. 

Esse é o caso o doutor José Fernando Seifarth de Freitas, juiz da Vara da Família em Piracicaba, importante cidade do interior paulista, que também é Fernando Seifarth, violonista dos mais respeitados entre o pessoal que toca o jazz manouche, ou cigano, gênero que nasceu da genialidade do belga Django Reinhardt, lá nos anos 30 do século passado e rapidamente se espalhou pelo mundo todo. 

O juiz de direito e o músico, provando que muitas vezes querer é poder, se fundiram há alguns anos para criar um dos mais interessan…