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O dono de jornal que adorava os idealistas


O pior patrão para quem trabalhei é hoje nome de um "complexo viário" em Jundiaí.

O seu jornal sobrevive até hoje na cidade em que passei praticamente metade dos meus 62 anos. 

Em três ocasiões comi o pão que o diabo amassou naquele lugar.

Foi lá onde aprendi boa parte dos macetes da profissão de jornalista.

Foi lá, também, que conheci aquele que, para mim, se tornou o exemplo do empresário brasileiro, um tipo que não conseguiu ir além da pré-revolução industrial.

De certa forma, esse personagem inesquecível representa, nas minhas lembranças, o período da ditadura militar, com toda a sua carga negativa, todo o seu autoritarismo, suas mentiras e seu desprezo pelos valores que dignificam o ser humano.

Uma frase dita por ele numa conversa de horas em seu escritório, onde fui tratar da possibilidade de ele aumentar o salário de não me lembro mais quem, ficou esses anos todos guardada em meu cérebro, como representativa de uma personalidade cínica, materialista e mesquinha:

- Adoro os idealistas: eles trabalham praticamente de graça.

Era verdade: a gente trabalhava praticamente de graça, porque gostava do que fazia, porque, na ingenuidade da juventude, achávamos que o jornalismo era algo especial, algo que ajudava a sociedade, que contribuía para fazer com que a vida das pessoas fosse melhor.

Pensávamos, com os hormônios da pós-adolescência fervendo, que cada edição que publicávamos era um capítulo a mais de uma crônica interminável sobre uma comunidade imperfeita, desigual e injusta, mas que amávamos, porque fazia parte de nós.

Tantos anos e várias redações de jornal depois, algumas imensas e impessoais, outras minúsculas, mas nem por isso desimportantes, constato, pesaroso, que praticamente tudo mudou para pior nesse árduo ofício de levar a público as informações necessárias para a manutenção de um corpo social sadio.

Os patrões ainda vivem como se estivessem nos primórdios do século XIX: ignoram os mais básicos direitos dos assalariados e usam suas empresas para difundir um ideário de repugnante reacionarismo.

Já os jornalistas abandonaram de vez qualquer pensamento que os distancie da comodidade de um salário que pague suas contas e os permita levar uma vida de classe média, de pequenos e insípidos burgueses.

Nos dias de hoje a frase do dono daquele jornal de Jundiaí não tem mais sentido, pois não há mais idealistas na imprensa.

Isso não impede, porém, que os jornalistas continuem trabalhando praticamente de graça: afinal, a mera sobrevivência se tornou uma difícil arte, que exige um tanto de dissimulação e hipocrisia.

Novos tempos, novos costumes.

(Carlos Motta)

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