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O dia em que o jornalista descobriu que foi traído por Collor


O Brasil parou no dia 16 de março de 1990, quando a equipe econômica do recém-eleito presidente Fernando Collor de Mello anunciou o pacote da vez, a "bala de prata", que, entre outras medidas, bloqueava as contas de cadernetas de poupança e demais aplicações financeiras acima de NCZ$ 50 mil (NCZ era a moeda de então, o cruzado novo).

Na redação do Estadão todo mundo estava de olho nos aparelhos de TV, tentando decifrar aquela loucura.

Ninguém estava entendendo nada, muito menos os comentaristas televisivos - alguém se lembra da cara de incredulidade da Lilian Witte Fibe, revirando os olhos sem parar, como se tivesse acordado de um pesadelo?

E das frases incompreensíveis do turco Ibrahim Eris, presidente do Banco Central?

E do ar de Maria, a Louca da ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Mello?

No meio daquela confusão toda estávamos nós, a equipe do caderno de economia, nos preparando e nos conformando para o que seria um longo dia de trabalho.

Como quem não quer nada, o tipo se aproximou da gente, ficou parado, como nós, de frente para a televisão.

O sujeito trabalhava no caderno de turismo.

Tinha sido um dos mais entusiasmados cabos eleitorais de Collor, e sempre que podia zombava dos eleitores declarados de Lula.

Ficou alguns minutos quieto, totalmente concentrado na telinha.

Até que, não aguentando mais, desabafou, numa frase, alto para todos ouvirem, toda a tensão e nervosismo que carregava:

- Mas eles estão confiscando a poupança!

Alguém que estava naquele grupo confirmou:

- É isso. Confiscaram a poupança.

Foi o suficiente para que ele virasse as costas para nós e fosse embora, caminhando lentamente para a sua mesa, no fundo da redação, repetindo, apalermado, até que sua voz fosse abafada pelo barulho da redação:

- Confiscaram a poupança, confiscaram a poupança...

(Carlos Motta)

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