sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Nunca acredite na palavra de um jornalista que não tem palavra


A convocação foi geral: todos os jornalistas deveriam comparecer ao auditório no dia tal, às tantas horas. 

Ordem do diretor de redação, o Abominável.

Peões obedientes, fomos.

O auditório estava lotado, no mínimo umas 300 pessoas.

Esperamos alguns minutos e, finalmente, ele chegou.

Com aquela sua voz lenta e pastosa começou a falar.

Primeiro, os agradecimentos de praxe, "obrigado por vocês terem vindo e blá-blá-blá".

Em seguida, os autoelogios, uma minibiografia profissional na qual destacava o período em que morou nos Estados Unidos, seus anos de serviço ao Banco Mundial, o "risco de vida" que correu ao acompanhar as tropas americanas na invasão da minúscula ilha de Granada, e mais blá-blá-blá.

Depois, para surpresa geral, enumerou as vantagens de um profissional mudar de emprego.

Trememos.

E pensamos: será que vem mais um passaralho [apelido carinhoso que os jornalistas dão às demissões] por aí?

Mas na sequência de sua já longa e entediante alocução, o Abominável finalmente chegou ao ponto que o interessava:

- Por fim quero desmentir esse boato que está correndo na redação de que vou trazer para trabalhar no Estadão a ... , minha namorada, que está na Gazeta Mercantil. É mentira. 

Dito isso, deu por encerrado o seu show.

Voltamos ao trabalho, os dias se passaram na rotina habitual, até que aquilo que era apenas um boato se confirmou: a namorada havia sido contratada para trabalhar como repórter especial, um dos cargos mais cobiçados no Estadão daquela época.

Para nós ficou uma lição: nunca acredite na palavra de quem não tem palavra.

(Carlos Motta)

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