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Aposentado brasileiro, um escravo do trabalho


O tratamento que os idosos e as crianças recebem no Brasil, tanto por parte do Estado quanto por parte da sociedade em geral, é vergonhoso.

Os jovens, se não são nascidos em berço de ouro, têm pouquíssimas oportunidades de sair do círculo infernal de ignorância e miséria em que vivem.

Os velhos, se não fazem parte do 1% endinheirado que observa a ralé no topo da pirâmide social, aguardam a morte como se fossem trapos imprestáveis.

E a perspectiva de alguma mudança nesse status quo se desvaneceu completamente com o surgimento deste Brasil Novo comandado por uma cleptocracia cuja única meta é assaltar os cofres públicos e transformar o país num paraíso ultraliberal, sepultando profundamente qualquer esperança de que a Constituição de 1988 valha alguma coisa.

A voracidade com que os novos donos do poder político avança sobre as conquistas sociais é tanta que eles não pretendem deixar intacto nem o mais eficaz mecanismo de distribuição de renda do país, que são os benefícios da Previdência Social.

Uma pesquisa feita pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) sobre a situação dos idosos no Brasil chega a uma terrível conclusão: mais de um terço deles (33,90%) continua a trabalhar depois de se aposentar, por uma questão de sobrevivência.

O destaque fica por conta dos profissionais autônomos (17,0%), trabalhadores informais ou que fazem bicos (10,0%) e profissionais liberais (2,1%). Os que ainda atuam como funcionários da iniciativa privada, contudo, são apenas 1,7% do total de entrevistados. Considerando os aposentados que tem entre 60 e 70 anos, o percentual dos que trabalham sobe para 42,3%. 

A decisão de seguir trabalhando a esta altura da vida está relacionada, principalmente, à necessidade financeira, embora essa não seja a única razão. A principal justificativa é o complemento da renda, uma vez que a aposentadoria não é o suficiente para pagar as contas (46,9%). Dois em cada dez (23,2%) idosos continuam trabalhando para manter a mente ocupada e 18,7% para se sentirem pessoas mais produtivas na sociedade. Há ainda 9,1% dos idosos que alegaram não ter parado de trabalhar para poder ajudar os familiares financeiramente.

A ampla maioria dos idosos (76,1%) até consegue se satisfazer financeiramente com a renda que possui, mas em 42,0% dos casos trata-se da “conta certa”. Ou seja, o dinheiro serve apenas para cobrir os gastos mais importantes. Em sentido contrário, quase um quarto (23,4%) dos idosos entrevistados admitem que com a renda atual não conseguem atender todas as suas necessidades. Ainda assim, nove em cada dez (95,7%) idosos contribuem ativamente para o sustento financeiro da casa, sendo que em mais da metade dos casos (59,7%) eles são os principais responsáveis. De modo geral, a aposentadoria e o recebimento de pensão (74,6%) são a principal fonte de renda dos idosos brasileiros, neste caso incluindo aqueles que estão aposentados ou não. 

Outro dado preocupante do estudo e que, em certo modo, explica o fato de tantos idosos ainda se sentirem na necessidade de trabalhar, é que 35,1% dessa população acima de 60 anos chegaram a terceira idade sem ter se preparado para a aposentadoria. No caso das mulheres e dos idosos das classes C, D  E, o percentual é ainda maior: 39,5% e 41,5%, respetivamente.

Seis em cada dez (61,5%) idosos entrevistados fizeram algum tipo de preparo e as principais atitudes foram a contribuição compulsória do INSS pela empresa em que trabalhavam (40,8%) e o pagamento do INSS por conta própria (17,4%). Uma parcela reduzida de apenas 8,4% teve o cuidado de investir na previdência privada. Outros tipos de preparo ainda mencionados, mas com menos intensidade, foram o depósito na poupança (4,5%) e o investimento em imóveis (4,4%) - neste último caso, não se leva em consideração o imóvel em que o entrevistado reside. 

Nos últimos 12 meses, três em cada dez (30,1%) idosos brasileiros deixaram de pagar  ou pagaram alguma conta com atraso - principalmente as de luz (13,9%), cartão de crédito (7,5%), telefone (6,9%) e água (6,7%). (Carlos Motta)

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