quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Brasil Novo, o paraíso artificial


"Yo no creo en las brujas, pero que las ay, las ay", escreveu Miguel de Cervantes, um dos maiores gênios da literatura mundial, em sua não menos genial obra "Dom Quixote".

Penso mais ou menos assim, desconfio desconfiando.

Longe de acreditar em teorias da conspiração, mas que muitas delas fazem sentido, ah, fazem.

Pois bem, neste Brasil Novo, creio que, meio sub-repticiamente, está se consolidando a versão de que agora as coisas vão dar certo, que tudo vai melhorar - se é que já não demorou.

As pessoas, na imensa maioria desinformadas das mais básicas noções de como funciona a macroeconomia, caem facilmente nesse conto de fadas - ou estelionato, como queiram.

Em pouco tempo, não tenho dúvidas, com exceção dos mesmos de sempre, todos vão estar sorrindo de felicidade, mesmo que estejam sem emprego, mesmo que a renda tenha caído pela metade, mesmo que a aposentadoria tenha se tornado um sonho impossível, como sonhos impossíveis se tornarão a educação e saúde universais e gratuitas, o crédito subsidiado para a compra da casa própria - e o crédito para outras finalidades, já pornográfico, suba ainda mais.

Todo dia recebo um press release de alguma entidade de classe do comércio ou da indústria, que até outro dia pintava o Brasil como verdadeira terra arrasada, em tom mais que otimista.

O último que chegou é da Anamaco, a associação nacional dos comerciantes de material de construção.

É pura alegria, é a cara desse cínico, hipócrita e desonesto Brasil Novo...

Vai a seguir na íntegra:

Vendas no varejo de material de construção crescem 8,5% em julho

Setor registra terceiro mês consecutivo com desempenho positivo no ano e, segundo expectativa da Anamaco, deve fechar 2016 com 5% de crescimento sobre 2015

As vendas no varejo de material de construção cresceram 8,5% no mês de julho, na comparação com junho deste ano. O desempenho foi 4% superior ao registrado no mesmo período de 2015 e equivale ao terceiro mês consecutivo de crescimento do setor em 2016.

Os dados são do estudo mensal realizado pelo Instituto de Pesquisas da Anamaco, com o apoio da Abrafati, Instituto Crisotila Brasil, Anfacer e Siamfesp. O estudo ouviu 530 lojistas de todas as regiões do país entre os dias 26 e 30 de julho. A margem de erro é de 4,3%.

“Com os bons resultados apresentados em julho, o setor, que acumula queda de 6% em 2016, deve praticamente zerar esse índice nos próximos dois meses graças ao elevado grau de otimismo demonstrado na pesquisa. Nos últimos 12 meses, estamos com queda acumulada de 4%”, explica o presidente da Anamaco, Cláudio Conz.

Segundo ele, a expectativa da entidade é que o varejo de material de construção encerre o ano com crescimento de 5% sobre 2015. “Continuamos firmes na nossa expectativa de fecharmos 2016 com crescimento, até porque, em mais de 30 anos de Anamaco, 2015 foi o primeiro ano que teve um segundo semestre com desempenho de vendas inferior ao primeiro. O frio também ajuda muito nas vendas e o tempo seco prolongado faz com que as obras tenham um bom andamento”, completa.

O presidente da Anamaco também ressalta que este é o melhor momento para o consumidor retomar as obras sem gastar mais do que gostaria. “O cliente já percebeu que a defasagem dos preços dos materiais de construção não deve durar, pois com os ajustes na produção pelas indústrias, os preços devem subir. Hoje, o cliente já tem dificuldade de encontrar a mesma disponibilidade de produtos e marcas que foram abundantes durante o ano passado. No momento, as lojas ainda estão vendendo esses produtos, em média mais baratos do que em 2015, porém os estoques já estão baixos e, assim que forem repostos, esses preços devem mudar”, diz.

A pesquisa da Anamaco também indicou que a região Sudeste foi a que mais se destacou no mês de julho, com 46% das lojas entrevistadas registrando aumento de vendas, numero 31% maior do que o de junho. No Nordeste, o índice foi de 36%, seguido do Sul (28%) e do Centro Oeste( 33%).

No levantamento por categorias, tintas registrou 10% de crescimento no mês, seguida por metais sanitários (4%). Fechaduras e ferragens e revestimentos cerâmicos apresentaram estabilidade no período, já louças sanitárias e telhas de fibrocimento apresentaram retração de 2% 4% respectivamente.

Ainda de acordo com a “Pesquisa Tracking Anamaco”, as estimativas para agosto são positivas: 59% dos entrevistados espera crescimento em relação a julho. O grau de otimismo sobre as ações do Governo nos próximos 12 meses cresceu de 46% para 55%. Já a intenção de contratar novos funcionários subir de 13% para 15%. Cerca de 38% dos entrevistados também afirmou que pretende fazer novos investimentos nos próximos 12 meses.

O varejo de material de construção fechou 2015 com retração de 5,8%. Foi a primeira retração registrada pelo segmento nos últimos 12 anos. A Anamaco está finalizando os estudos para alterar o método de cálculo do faturamento do setor, em razão das novas medições introduzidas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em seus índices. Um estudo prévio, a ser finalizado em março, apontou que o varejo de material de construção teve um faturamento de R$ 115 bilhões em 2015.

(Carlos Motta)

Um comentário:

  1. Parece que não tem aparecido nos releases otimistas de agora aquela outra expressão muito comum nos releases pessimistas: "baixa base de comparação".
    2015 foi um ano de retração/recessão: no setor analisado neste artigo, por exemplo vale destacar: " o varejo de material de construção fechou 2015 com retração de 5,8%. Foi a primeira retração registrada pelo segmento nos últimos 12 anos".
    T

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