Pular para o conteúdo principal

Sobre trânsfugas, traidores, delatores e dissimulados

Os mais jovens não devem saber que no tempo da ditadura existiam dois partidos, um oficial, de sustentação do governo, chamado Arena (Aliança Renovadora Nacional), e o da oposição, o MDB (Movimento Democrático Brasileiro). 

Essa foi a maneira que os militares golpistas arranjaram para dar um ar de, digamos, democracia, ao cruel regime ditatorial que impuseram ao Brasil, com a ajuda, patrocínio e apoio da oligarquia, ou seja, dos endinheirados, que como hoje, usaram a classe média conservadora, envenenada pela propaganda midiática disfarçada de jornalismo, para derrubar um governo legítimo.

Não era fácil, naqueles dias, ser da oposição - mesmo daquela oposição consentida.

Muitos, porém, dos que ingressaram no MDB o fizeram menos por questões ideológicas, mas por puro oportunismo, ao sentir que a "Gloriosa" perdia apoio popular.

É o que aconteceu com o PT, que foi arrebanhando, ao longo dos anos, e conforme se tornava uma alternativa viável ao poder central, um bando de oportunistas, que desconheciam por completo tanto a história do partido como o seu programa.

Claro que esse pessoal permaneceu na legenda ou até que suas reais intenções foram descobertas ou até que arranjaram coisa melhor.

Meu saudoso pai, o capitão Accioly, certa feita, numa daqueles festinhas familiares de aniversário, lá pelos anos 1960, na então pacata Jundiaí, ao conversar com um parente torto de minha mãe, que tinha pretensões políticas e era crítico feroz da ditadura, e portanto, pertencia ao MDB, foi informado pelo dito cujo que ele tinha decidido passar para o lado de lá, ou seja, se filiar à Arena.

O capitão Accioly, surpreso, fez a ele, então, a pergunta inevitável:

- Mas por que você vai fazer isso?

E a resposta não poderia ser mais típica desse tipo de gente, falsa e dissimulada:

- É que lá dentro eu posso trabalhar melhor pelo fim da ditadura.

Só para constar: o sujeito acabou sendo eleito prefeito de Jundiaí, fez uma administração mais que suspeita, tentou se reeleger várias vezes, sempre por partidos diferentes, mas todos reacionários. Nunca se elegeu para mais nada.

Na Prefeitura, convidou meu pai para chefiar a Guarda Municipal. Recebeu um sonoro não como resposta.

E toda vez que o capitão Accioly se referia a políticos que trocavam de partidos a toda hora, resumia essa situação com uma só palavra:

- Trânsfuga.

Assim como meu pai, não confio em trânsfugas, nem em delatores, nem em traidores, nem em pessoas dissimuladas.

O mundo estaria muito melhor sem gente desse tipo. (Carlos Motta)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Pátria deseducadora

A arte popular brasileira ganha um livro

"Eu me ensinei: narrativas da criatividade popular brasileira" é ao mesmo tempo um livro de arte e um compêndio raro sobre a obra de 78 artistas autodidatas de todo o país. “Eu me ensinei sozinha”, frase cunhada por Izabel Mendes da Cunha, conhecida como Dona Izabel, representa, com clareza, a síntese da categoria que aglutina os artistas do livro. A obra será lançada no dia 7 de dezembro de 2017, às 18h30, na Livraria Martins Fontes – Avenida Paulista, 509, em São Paulo. 
Autoria e projeto editorial de Edna Matosinho de Pontes, a publicação bilíngue (português e inglês), 464 páginas, editada pela Via Impressa Edições de Arte, além de registrar a vida e obra dos artistas relacionados, traz um ensaio aprofundado sobre a questão da arte popular, de Ricardo Gomes de Lima, e texto de apresentação assinado por Fabio Magalhães. 

Com seu arsenal de conhecimento sobre essa expressão artística nacional, acumulado ao longo de 30 anos como estudiosa, colecionadora e galerista, Edna Ponte…

Juiz de direito, guitarrista. E criador de um festival internacional de música

Carlos Motta
A vida de músico não é fácil no Brasil. Da mesma forma, não é para os fracos a tarefa de promover a música num ambiente dominado por uma indústria que odeia a qualidade. Mesmo assim há pessoas que se dedicam simultaneamente à vida artística e à extenuante missão de levar cultura ao público. 

Haja fôlego, haja coragem, haja vontade.

A situação se complica ainda mais quando essa pessoa exerce uma profissão que exige uma atenção constante, quase como um sacerdócio. 

Esse é o caso o doutor José Fernando Seifarth de Freitas, juiz da Vara da Família em Piracicaba, importante cidade do interior paulista, que também é Fernando Seifarth, violonista dos mais respeitados entre o pessoal que toca o jazz manouche, ou cigano, gênero que nasceu da genialidade do belga Django Reinhardt, lá nos anos 30 do século passado e rapidamente se espalhou pelo mundo todo. 

O juiz de direito e o músico, provando que muitas vezes querer é poder, se fundiram há alguns anos para criar um dos mais interessan…