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O Reino Desunido

O resultado do plebiscito no Reino Unido, a favor da saída da União Europeia, terá inevitáveis consequências sociais, políticas e econômicas no continente europeu e, por consequência, em todo o mundo.

O site brasileiro da BBC publica interessante matéria sobre o plebiscito, indicando que seu resultado revelou a existência de dois países distintos e muitas dferenças entre as gerações.

Segue a íntegra:

Plebiscito revela 'Reino Desunido' e fosso entre gerações

O resultado do plebiscito a favor da saída do Reino Unido da União Europeia (UE) revelou profundas divisões entre os britânicos.

Revelou, por exemplo, duas 'Inglaterras': Londres votou pela permanência, enquanto a maioria das outras cidades votou pela saída. A diferença entre as gerações também ficou clara. No grupo entre 18 e 24 anos, 64% disseram ter votado pela permanência, escolha de apenas 33% dos britânicos entre 50 e 64 anos.

O resultado levou ao anúncio de renúncia do primeiro-ministro David Cameron, que liderou a campanha pela permanência. 51,9% dos britânicos votaram pela saída contra 48,1%. Espera-se que o processo seja negociado ao longo dos próximos dois anos.

"O plebiscito revelou uma placa tectônica dividindo o Reino Unido. Uma ferida que dividiu a política e as estruturas sociais. Está longe de ficar claro se o reino ainda pode se declarar unido", escreveu o jornalista da BBC Mark Easton.

Os principais partidos políticos apoiaram a campanha pela permanência. No entanto, havia grandes divisões internas, principalmente, no Partido Conservador, que governa o país.

O plebiscito acabou forçando o primeiro-ministro David Cameron a anunciar sua renúncia poucas horas após a divulgação do resultado.

Ele havia prometido o plebiscito durante sua campanha, cumpriu a promessa, defendeu a permanência e acabou derrotado.

Não está claro quem o substituirá na liderança do partido e consequentemente no cargo de primeiro-ministro. Um dos cotados é o ex-prefeito de Londres, Boris Johnson, a principal voz em favor da saída do bloco. Eleições podem ser convocadas em outubro.

Também no Partido Trabalhista, o principal partido de oposição, havia divisões e também críticas à liderança de Jeremy Corbyn, considerada fraca na tentativa de convencer eleitores a adotarem a linha oficial do partido, pró-Europa.

Uma das possíveis razões para essa suposta falta de empenho vem da posição de setores mais à esquerda que defendiam que a competição com trabalhadores europeus, como poloneses, por exemplo, havia prejudicado os britânicos mais pobres, da chamada classe trabalhadora.
Essa disputa com europeus também havia prejudicado, segundo essas vozes mais à esquerda, o acesso de britânicos mais pobres a benefícios, como moradia subsidiada pelo governo.

Geográfico

O Reino Unido é formado por quatro unidades: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte.
A referência ao 'Reino Desunido' se explica por resultados díspares em diferentes regiões. Na Escócia, por exemplo, 62% dos eleitores votaram pela permanência e apenas 38% pela saída.

Esse contraste no resultado com o resto do país pode renovar o ímpeto pela independência entre muitos escoceses. Em 2014, um plebiscito acabou decidindo pela permanência da Escócia no Reino Unido, e um dos argumentos principais da campanha contra a independência era o acesso à União Europeia via Reino Unido.

Em um pronunciamento na manhã desta sexta-feira, a primeira-ministra do governo escocês, Nicola Sturgeon, afirmou que "uma mudança significativa e material nas circunstâncias" deve tornar "muito provável" a realização de um novo plebiscito sobre a independência da Escócia.

"Dissemos (os escoceses) claramente que não queremos deixar a União Europeia. Estou determinada a fazer o que seja necessário para garantir que esse desejo seja concretizado", afirmou.

A Irlanda do Norte também votou pela permanência (55% contra 44%). O País de Gales votou pela saída (52,5% contra 47,5%).

O contrastre entre Londres e a maior parte da Inglaterra também foi considerável. Na capital, 60% votaram pela permanência e 40% pela saída.

O resultado renovou uma campanha, em tom de piada, para que Londres fizesse seu próprio plebiscito pela independência do resto do país: #independenceforlondon.

Essa diferença se explica, em parte, pela pujança econômica da cidade e pela maior presença de estrangeiros. Um dos temas principais da campanha conhecida como Brexit (junção entre as palavras Britain - Grã-Bretanha- e exit - saída) foi o controle da imigração.

Londrinos, no entanto, tendem a aceitar e a valorizar mais a globalização e a diversidade. Estão mais acostumados a seus efeitos, positivos ou negativos.

Demográfico

O fosso entre geração talvez seja o maior registrado na análise da votação do país, com os mais jovens optanto pela permanência na União Europeia e os mais velhos, pela saída.

No grupo entre 18 e 24 anos, 64% votaram pela permanência, segundo pesquisa de boca de urna do instituto YouGov. No grupo com mais de 65 anos, apenas 33% disseram ter votado pelo Reino Unido dentro do bloco.

Essa divisão gerou críticas de muitos jovens de que os mais velhos decidiram pelo futuro de quem, de fato, irá vivê-lo.

Em um comentário postado em uma reportagem do Financial Times, um leitor escreveu: "A geração mais jovem perdeu o direito de viver e trabalhar em 27 países. Nós nunca conheceremos a extensão da perda de oportunidades, amizades, casamentos e experiências que serão negadas. A liberdade de movimento nos foi retirada pelos nossos pais, avós e tios em um golpe contra uma geração já afundada nas dívidas da geração anterior. Talvez mais importante, vivemos em uma sociedade pós-factual em que fatos se revelaram inúteis ao se confrontarem com mitos".

Segundo o editor da BBC Mark Easton, a escolha feita pelos eleitores neste dia histórico foi entre um caminho (da permanência) que prometia um mundo moderno, cheio de oportunidades e baseado na interdependência e o outro caminho (da saída) que prometia levar à independência de uma terra que respeitaria tradição e herança cultural.

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