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O ataque homofóbico em Orlando e o cenário eleitoral nos EUA

A semana de encerramento das primárias eleitorais nos EUA começou com um crime de ódio na cidade de Orlando, onde um atirador, o nova-iorquino Omar Mateen, matou 49 pessoas e feriu 53 numa boate LGBT, frequentada majoritariamente pela comunidade latina.  O atirador era um cidadão estadunidense, nunca saiu do país e foi treinado como funcionário de uma das maiores multinacionais de segurança privada do mundo – a britânica G4S, presente em mais de cem países, com funções que vão desde a administração de prisões privatizadas à prestação de serviços terceirizados para as intervenções militares dos EUA no exterior. Apesar disto, prontamente vários veículos de imprensa começaram a reportar o caso com um atentado terrorista, com especulações sobre as motivações religiosas e a ascendência afegã do criminoso, com base em supostas declarações de identificação com o Estado Islâmico por parte do atirador.

Na mesma velocidade, o pré-candidato republicano, Donald Trump, se pronunciou sobre o episódio, reforçando seu discurso de preconceito com a promessa de restringir a entrada de imigrantes e refugiados no país. Trump ainda acusou Obama, com insinuações de cumplicidade com o terrorismo, e tentou acenar para o público LGBT, acusando a pré-candidata democrata, Hillary Clinton, de permitir a “entrada de radicais que escravizam mulheres e assassinam gays” e de receber recursos da Arábia Saudita para a Fundação dos Clinton nos anos 90. Apesar da tentativa de ligar o crime ao “radicalismo islâmico” e da existência de agrupações LGBT minoritárias dentro do Partido Republicano, a própria sigla tem passado por uma crescente radicalização de sua plataforma política, com fortes elementos religiosos contra o casamento homoafetivo, contra o aborto, entre outras pautas conservadoras.

O discurso de Clinton, por sua vez, foi mais cuidadoso, destacou os elementos de homofobia e da venda irrestrita de armas, mas não deixou de reforçar a narrativa dominante ao descrever o episódio como um “ato de terror de ódio” e de prometer medidas para melhorar a “segurança externa e interna”, com mais bombardeios contra o Estado Islâmico, maior cooperação com os aliados e maior controles de armas. A proposta de dificultar o acesso a armamentos, com regras mais rígidas para a checagem de antecedentes e para o porte de armas, já foi lançada por Obama no ano passado, mas encontra dificuldades frente ao poderoso lobby do setor.

Neste cenário, a reta final da pré-campanha, rumo às convenções partidárias de julho, deve seguir pautada pela tentativa dos candidatos de capitalizar sobre os diversos aspectos do massacre em Orlando.

O encerramento das primárias

No campo republicano, apesar da mídia seguir especulando sobre a articulação de uma eventual alternativa a Trump – a partir de brechas nas regras da convenção –,  a oficialização de sua candidatura se materializa a cada dia. Ainda em maio o pré-candidato assegurou o número suficiente de delegados para sua indicação. Contudo, figuras tradicionais do partido, como os ex-Presidentes Reagan e os Bush, têm declarado que não apoiarão Trump. Alguns reconhecidos neocons (setor do partido republicano, bastante presente nas administrações de George W. Bush, favorável a uma política externa mais agressiva) têm manifestado apoio a Clinton. O fato não surpreende dada a existência de pontos de convergência entre os elementos intervencionistas dos neocons e a plataforma de Clinton, que é identificada como uma das principais expressões da vertente liberal intervencionista do partido democrata (vide a intervenção da OTAN na Líbia em 2011 quando Clinton era Secretária de Estado).

Além dos preconceitos contra imigrantes, as menções de Trump ao tema da política externa mostram propostas confusas e incoerentes, tais como: eliminar o Estado Islâmico e os extremistas, mas também retirar o país de conflitos ao redor do mundo, e sair da OTAN, caso os aliados europeus não assumam os custos com a manutenção de sua segurança. Trump também promete retirar o país de negociações comerciais, como a Parceria Transpacífico (TPP), e reverter outros tratados de livre comércio já em vigor, o que se chocaria frontalmente com o interesse de grandes corporações multinacionais, bastante atuantes na institucionalidade do Estado.

Entre os democratas, as vitórias nas últimas prévias praticamente asseguraram a indicação da Senadora Hillary Clinton. Ainda que numericamente a indicação dependa do voto de poucos superdelegados (que são lideranças na máquina partidária com liberdade de voto na convenção), este fato não deve ser um empecilho, já que, desde o início, sua candidatura contava com amplo apoio deste segmento do partido. Por outro lado, o senador Bernie Sanders, não retirou sua candidatura, que deve ser levada até a convenção. Embora as chances de indicação sejam quase nulas, sua manutenção como pré-candidato pode consolidar a base política conquistada durante as primárias e reforçar o ineditismo do apoio obtido por uma candidatura de esquerda dentro do partido democrata.

Os números finais das primárias trazem os seguintes resultados:



Um destaque da candidatura Sanders foi o forte apoio entre os millennials, jovens entre 20 e 36 anos. Pesquisa Gallup realizada em meados de maio mostrou que neste grupo, 55% tinham opiniões favoráveis a Sanders, 38% a Clinton e 22% a Trump. Embora a Senadora tenha vantagem entre os grupos de mulheres e afrodescentes em geral, o resultado entre os jovens é oposto: 57% das mulheres jovens expressaram opiniões favoráveis a Sanders, frente a 45% de Clinton; entre os jovens negros o número de apoio ao Senador de Vermont chegou a 67%, frente a 60% de Clinton.

A partir das indicações oficiais em julho terá início uma fase distinta das estratégias de campanha, mas, até agora, o bom desempenho de Sanders na corrida presidencial forçou Clinton a incluir algumas promessas mais progressistas em seus discursos, como o aumento do salário mínimo, a ampliação da cobertura do serviço de saúde e uma posição mais cautelosa sobre o TPP. Contudo, pelo menos no caso do TPP, é difícil visualizar a declaração de Clinton como algo além de uma promessa de campanha, já que a Senadora foi uma figura importante desta estratégia quando ocupava a Secretaria de Estado. Além disso, a promoção de acordos de livre comércio está presente tanto na plataforma democrata, quanto na republicana desde o fim da Guerra Fria, como mostra a assinatura do NAFTA durante a gestão Clinton nos anos 90 e a continuidade dos TLCs durante as administrações Bush e Obama. (Terra Budini/Fundação Perseu Abramo)

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