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O brasileiro está se lixando para a democracia

O Brasil viveu mais tempo sob ditaduras do que na plenitude democrática.

Mesmo hoje, muita gente ainda tem lembrança dos governos militares, que davam a falsa impressão de que no país tudo ia bem - claro, a censura não permitia notícias contrárias ao regime, nem aquelas que levassem a população a desconfiar que aquele paraíso era artificial. 

O Jornal Nacional, em sua plenitude de audiência, vendia um mundo maravilhoso para uma plateia anestesiada.

O período pós-ditadura militar, principalmente depois da Constituição de 1988, apresentou uma série de dificuldades econômicas, normais numa fase de transição, mas que marcaram negativamente, no imaginário popular, os governos de Sarney, Collor, Itamar e FHC.

Para muitos, essa instabilidade, evidenciada pelos inúmeros pacotes econômicos editados, cada qual com uma promessa de salvação que nunca se concretizava, foi a marca da democracia - onde estava o progresso emblemático de nossa bandeira?

A pressão social, abertas as comportas para as reivindicações dos vários movimentos sociais calados pelos ditadores militares, também influiu na impressão de que muita democracia leva à bagunça - onde estava a ordem, o outro valor emblemático de nossa bandeira?

Os governos trabalhistas proporcionaram notáveis avanços nos campos econômico e social e foram os responsáveis pelo país viver os anos em que a democracia mais progrediu em diversas áreas.

Mas ao mesmo tempo foram os anos em que a plutocracia mais combateu as mudanças que propiciaram uma leve diminuição da desigualdade social, tema tabu para os detentores do capital.

O que se viu foi um massacre midiático, uma verdadeira lavagem cerebral em massa, para demonizar todas as forças progressistas, ao mesmo tempo em que amplos setores das várias instituições da república se encarregavam de oficializar essa carnificina.

O resultado desse movimento, paciente e estrategicamente calculado e executado, foi o golpe que apeou do governo a presidenta Dilma e que vai se consumar com a cassação do registro do maior partido das esquerda, o PT, e a retirada da disputa eleitoral de sua maior liderança, o ex-presidente Lula.

Tudo isso somado fez com que o brasileiro médio não dê hoje muita importância aos valores democráticos.

Ele quer mesmo é viver em qualquer regime que propicie a ele alguma estabilidade econômica, quiçá algum ganho salarial e, quem sabe, uma ascensão social, modesta que seja.

De resto, ele não quer nem saber se o presidente da República é de direita, de esquerda, corrupto ou honesto.

O que importa para o nosso típico cidadão brasileiro é poder levar vantagem, sair-se bem nas suas empreitadas, ganhar alguma grana fácil, andar de carro novo e vestir-se na moda, comer fora de casa algumas vezes por mês e viajar nas férias.

O resto, como se diz, é resto.  (Carlos Motta)

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